ARTIGO DA SEMANA - 14.08.06
De Punto Fijo a Hugo Chávez - Uma análise da formação da política externa venezuelana
A política externa venezuelana sofreu grandes mudanças nos últimos anos, devido, principalmente, à vitória de Hugo Chávez nas eleições presidenciais de 1998. Com ele o povo se tornou protagonista de seu país e pode intervir, inclusive, nos desígnios das relações internacionais da Venezuela com as nações de todo o mundo. Claro, tudo capitaneado pela liderança de Chávez, considerado um verdadeiro salvador para a classe trabalhadora pobre local, pois começou a olhar com carinho para as suas necessidades e, conseqüentemente, buscando apoio para suas políticas dedicadas aos menos favorecidos no terreno externo, correndo atrás de acordos de cooperação e posicionando firmemente sua soberania e autonomia perante o mundo. Mas, antes de aprofundar essa deliciosa análise da conjuntura atual venezuelana, vale destacar alguns pontos de seu passado.
Segundo artigo “Venezuela: mudanças políticas na era Chávez”, do professor de Relações Internacionais do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo, Rafael Duarte Villa, a análise a respeito de uma Venezuela democrática deve ser feita a partir do fim da ditadura de Marcos Peres Jiménez, em 1958, e culmina com a concepção do Pacto de Punto Fijo na Constituição de 1961, uma espécie de acordo entre as elites para apaziguar a situação e governar o país por meio de diretrizes democráticas, formado, principalmente, por dois partidos, o partido Social Cristão (COPEI) e a Ação Democrática, que vão se alternar no poder durante o período: “(...) o pacto reconheceu que podiam ser canalizadas no marco das pautas de convivência e [no reconhecimento] de que existiam interesses comuns na sobrevivência do sistema” (Villa apud Romero, 2005)[1].
Partindo disto, a política externa do país não poderia ser outra senão a defesa da democracia em âmbito internacional. Essa postura tinha nome e se chamava doutrina Betancourt, que apontava, entre outras coisas, para o não reconhecimento de nenhum governo no continente que tivesse sido formado por meio de um golpe de Estado.
Outro ponto vital a se destacar do Pacto Punto Fijo é a formação de uma base econômica para a sustentação política dessa democracia que durou cerca de trinta anos (1958-1989). Certamente, o petróleo foi decisivo para formar o que Villa chama de “base material” do pacto: “A base material do Pacto Punto Fijo foi dada pela distribuição clientelista da renda petrolífera. A existência do petróleo condicionou a forma de intervenção do Estado na economia, e também a relação deste com o restante dos atores políticos, tais como partidos, sindicatos, forças armadas e setor privado. Todos estes setores foram subsidiados pelo Estado, fato este que inibiu qualquer possibilidade de crítica sobre as conseqüências futuras do modelo clientelista de conciliação então adotado” (Villa, 2005) . Ele ainda faz um apontamento importante: “Não se pode compreender a vida política venezuelana, desde o início do período democrático em 1958, sem o entendimento do papel protagônico do Estado” (Idem).
De acordo com o artigo “A Venezuela e Seus Vizinhos”, do professor titular da Universidade de Brasília, Amado Luiz Cervo, o país caminhou para um isolacionismo nas décadas pós-anos 50, ou seja, a partir da vitória da democracia das elites no fim dessa década. A Venezuela, mantendo sua doutrina, criticava o regime cubano e os governos militares na América do Sul, arrumando confrontos com esses países; e acabou por voltar-se para os Estados Unidos, o grande consumidor de petróleo venezuelano; mas, também, para o protecionismo, com o objetivo de expandir sua indústria interna, causando mal-estar com os vizinhos. O autor indica as principais diretrizes de sua política externa e sua ação na região durante esse período: “a dependência das exportações de petróleo, cerca de 90% do total; a dependência dos Estados Unidos, principal investidor, cliente e fornecedor, e a repercussão interna dos acontecimentos políticos na área do Caribe” (Cervo, 2001)[2].
Isso vai durar, na verdade, nada mais que uma década, pois, a partir da eleição de Rafael Caldera Rodríguez, em 1968, a doutrina Betancourt não passaria a ser aplicada com tanto afinco, dando prioridade, nos anos 70, a criação de laços com países que poderiam consumir o petróleo produzido pela Venezuela, ou seja, uma visão mais realista do cenário internacional. No entanto, o sucesso do petróleo, causado pelos seus preços exorbitantes nessa época, indicou um retorno ao pensamento bolivariano de liderar a América Latina, integrando-a em torno da Venezuela. Mas, os resultados não foram os esperados: “A Venezuela prosseguirá vivendo de sonho e de ilusão: o sonho bolivariano e a ilusão do petróleo. O primeiro não lhe garantiria a pretendida liderança sobre a América do Sul e a segunda não traria o desenvolvimento social e econômico esperado” (Cervo, 2001).
Somente depois desse duro golpe é que a Venezuela começou a se livrar das amarras do isolacionismo de uma vez por todas a se guiar por “uma orientação realista, que articulava os objetivos da cooperação e da integração com o esforço interno de desenvolvimento”, devido graças a reorientação dos dois partidos que davam as cartas no país àquela época. Essa mudança de visão foi aproveitada pelo Brasil que fez diversos acordos com a Venezuela e Argentina, principalmente nas áreas energética e comercial. “A mudança política regional da Venezuela representou, portanto, injeção de ânimo tanto para os movimentos de integração quanto para a cooperação bilateral entre vizinhos” (Cervo, 2001).
Os problemas chegaram por volta da década de 80, quando do surgimento da recessão que entravou as economias dos países latino-americanos, provocou o aumento nos encargos da dívida externa e a queda nos preços do petróleo, a partir de 1984, devido a grande oferta no mercado mundial. “O comportamento negativo da economia nos anos de 1980 afetou de forma relevante a base material redistributiva do regime venezuelano, fato que mostrava que a eficácia política do Pacto de Punto Fijo estava intrinsecamente atrelada ao comportamento do modelo rentista petrolífero” (Villa, 2005).
Talvez por esse desgaste do modelo de pacto democrático ter sido baseado somente na distribuição dos ganhos obtidos pelo petróleo – lembrando, tudo controlado pelo Estado – a partir de 1989, uma crise política começou a se instalar no país. Carlos Andrés Peres foi eleito no fim de 1988, ainda com a lembrança das elites dele ter governado no período áureo do petróleo, entre 1973-1978. No entanto, ele adotou um pacote de medidas neoliberais[3] para combater os problemas econômicos. Ocorre que essas medidas não foram bem vistas pela fatia mais pobre da Venezuela que acreditava muito mais na intervenção do Estado – que gerava a grande maioria dos empregos – para o bom funcionamento da economia.
Segundo Villa, “o primeiro forte sintoma da instabilidade política do sistema democrático venezuelano” e que foi primordial para arrebentar com as instituições democrática do Pacto de Punto Fijo foi o Caracaço, em 27 de fevereiro de 1989, uma manifestação popular contra as medidas do governo, que teve o protesto reprimido pelos militares, provocando a morte de trezentas pessoas, segundo dados oficiais. Fontes extra-oficiais esticam o número para mais de mil mortos. Já em 1992 há uma tentativa malograda de golpe, liderada pelo então tenente-coronel, Hugo Chávez Frias, agravando a crise política. No ano seguinte, Carlos Andrés Pérez é afastado do governo, acusado de corrupção. Tentou-se um arremedo de reforma para tentar manter as instituições democrático-burguesas, sem o sucesso esperado para manter o sistema sem deformações.
Villa afirma que o enfraquecimento do pacto entre elites provoca um vazio na política do país, que acabou sendo preenchido de forma eloqüente por Chávez. “O radicalismo do discurso chavista, que precede as eleições presidenciais de 1998, transformou-o naquele que melhor interpretava o desejo de mudança popular, tanto em relação à classe política dominante como em relação às suas instituições legadas pela constituição de 1961” (Villa, 2005). E sua vitória, com mais de 58% dos votos válidos em dezembro de 1998, trouxe, na visão do referido autor, mudanças importantes tanto para a política da Venezuela como para a da própria América Latina. O discurso bolivariano volta para ficar, transformando-se num elemento concreto de ação política, seja na arrumação de sua casa, seja no sentido de integrar e formar uma grande nação latino-americana.
Cervo tem uma posição bastante clara a respeito da ascensão de Chávez à presidência venezuelana: “[A vitória] pôs fim a dominação de quarenta anos dos dois partidos conservadores tradicionais, inaugurando um outro modelo político caracterizado pelo nacionalismo social, distinto do conservadorismo tradicional e da malograda experiência neoliberal recente” (Cervo, 2001). Ele conta, ainda, que a política externa desse país foi enfatizada nos vizinhos, segundo palavras do Ministro de relações Exteriores da Venezuela, José Vicente Rangel, tendo quatro áreas básicas para o esforço de sua diplomacia: a atlântica, a caribenha, a andina e a amazônica. “Seus objetivos se desdobrar-se-iam na implementação de importantes projetos de cooperação bilateral e na determinação de contribuir, desde a região, para agilizar os processo de integração. Decidiu, desse modo, o novo Governo venezuelano jogar seu peso político, a força de seu mercado e de seu setor produtivo, particularmente o petrolífero, em favor da união da América Latina (grifo meu)” (Cervo, 2001).
Isso fica evidente, como exemplo, num discurso de Chávez durante a 30ª Cúpula do Mercosul, em que a Venezuela foi oficializada como membro permanente do bloco. Conforme notícia veiculada no site do governo da Venezuela[4], Chávez coloca a importância da efetivação de um mundo “pluripolar”, ou seja, sem uma liderança hegemônica, defendendo uma integração social para que seja consolidada a formação de um bloco do Sul: “A América Latina tem o necessário para ser uma potência mundial (tradução minha)”, disse Chávez, que propõe a formação de uma comissão estratégica que organize e planifique os projetos complementares.
Ele deixa claro, inclusive, que o interesse de seu país é o petróleo, a energia e o gás, e, que essas três peças devem se converter numa ferramenta chave para essa integração, e cita o exemplo do Gasoduto do Sul, projeto entre Brasil, Argentina e Venezuela, para construir um gasoduto gigante que percorra boa parte da América do Sul. Ressaltou, ainda, que o Mercosul pode começar a pensar na elaboração de uma Constituição, de uma moeda comum, de um Banco Central comum. “Há que construir poder, o poder se constrói sobre o espaço, com os povos unidos, com instituições, com institucionalidade, com recursos econômicos, com produção (tradução minha)”, acrescentou o presidente venezuelano. Provavelmente, no fim das contas, a Comunidade Sul-Americana de Nações, é o passo a ser perseguido, pelo menos esse é o discurso de países como Venezuela e Brasil, a respeito da comunidade criada há menos de três anos.
Como outro exemplo, a criação da Alternativa Bolivariana das Américas (ALBA) ano passado, com Cuba e, agora, com a Bolívia, com a formulação de parcerias e acordos cooperativos, voltados principalmente para áreas de maior necessidade, como médicos e educadores cubanos para a Venezuela e petróleo da PDVSA para Cuba, tudo isso indica um passo para uma integração regional, mas, aqui, com um cunho ideológico bastante forte e presente, pelo menos é o que acredita o assessor especial de política externa da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, em entrevista concedida ao jornalista Gilberto Maringoni, em 07 de junho deste ano[5]: “Do ponto de vista comercial, a Alba não é relevante. É um projeto político ideológico muito preciso. Ela nunca foi proposta ao Brasil. (...) A Alba é muito mais um desígnio geral. Se quisermos tomar uma imagem gastronômica, a Alba não é um bife, é o molho. O Mercosul tem uma densidade maior, por contemplar políticas comerciais, econômicas, etc. O que escapar do Mercosul, ficará para a Comunidade Sul-Americana de Nações”.
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[1] Villa, Rafael Duarte. Venezuela: mudanças políticas na era Chávez. Scielo Brasil, 26 de setembro de 2005.
[2] Cervo, Amado Luiz. A Venezuela e Seus Vizinhos. Brasília: UNB, 2001.
[3] Entre as medidas mais (im)populares do neoliberalismo que o governo Pérez aplicou estão: forte ajuste fiscal, privatização das principais empresas estatais, com exceção da petrolífera, e o enxugamento da máquina administrativa do Estado
[4] Herrera, Laura Carolina. El objetivo es conformar um mundo pluripolar. Ministério de Comunicação e Informação do Governo Bolivariano da Venezuela, 21 de julho de 2006.
[5] Maringoni, Gilberto. “Nosso objetivo internacional era integrar a América do Sul. E conseguimos”. VoltaireNet, 07 de junho de 2006.
Obs.: Artigo publicado originalmente na Coluna 35 da Edição 82 da Revista Rabisco.
A política externa venezuelana sofreu grandes mudanças nos últimos anos, devido, principalmente, à vitória de Hugo Chávez nas eleições presidenciais de 1998. Com ele o povo se tornou protagonista de seu país e pode intervir, inclusive, nos desígnios das relações internacionais da Venezuela com as nações de todo o mundo. Claro, tudo capitaneado pela liderança de Chávez, considerado um verdadeiro salvador para a classe trabalhadora pobre local, pois começou a olhar com carinho para as suas necessidades e, conseqüentemente, buscando apoio para suas políticas dedicadas aos menos favorecidos no terreno externo, correndo atrás de acordos de cooperação e posicionando firmemente sua soberania e autonomia perante o mundo. Mas, antes de aprofundar essa deliciosa análise da conjuntura atual venezuelana, vale destacar alguns pontos de seu passado.
Segundo artigo “Venezuela: mudanças políticas na era Chávez”, do professor de Relações Internacionais do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo, Rafael Duarte Villa, a análise a respeito de uma Venezuela democrática deve ser feita a partir do fim da ditadura de Marcos Peres Jiménez, em 1958, e culmina com a concepção do Pacto de Punto Fijo na Constituição de 1961, uma espécie de acordo entre as elites para apaziguar a situação e governar o país por meio de diretrizes democráticas, formado, principalmente, por dois partidos, o partido Social Cristão (COPEI) e a Ação Democrática, que vão se alternar no poder durante o período: “(...) o pacto reconheceu que podiam ser canalizadas no marco das pautas de convivência e [no reconhecimento] de que existiam interesses comuns na sobrevivência do sistema” (Villa apud Romero, 2005)[1].
Partindo disto, a política externa do país não poderia ser outra senão a defesa da democracia em âmbito internacional. Essa postura tinha nome e se chamava doutrina Betancourt, que apontava, entre outras coisas, para o não reconhecimento de nenhum governo no continente que tivesse sido formado por meio de um golpe de Estado.
Outro ponto vital a se destacar do Pacto Punto Fijo é a formação de uma base econômica para a sustentação política dessa democracia que durou cerca de trinta anos (1958-1989). Certamente, o petróleo foi decisivo para formar o que Villa chama de “base material” do pacto: “A base material do Pacto Punto Fijo foi dada pela distribuição clientelista da renda petrolífera. A existência do petróleo condicionou a forma de intervenção do Estado na economia, e também a relação deste com o restante dos atores políticos, tais como partidos, sindicatos, forças armadas e setor privado. Todos estes setores foram subsidiados pelo Estado, fato este que inibiu qualquer possibilidade de crítica sobre as conseqüências futuras do modelo clientelista de conciliação então adotado” (Villa, 2005) . Ele ainda faz um apontamento importante: “Não se pode compreender a vida política venezuelana, desde o início do período democrático em 1958, sem o entendimento do papel protagônico do Estado” (Idem).
De acordo com o artigo “A Venezuela e Seus Vizinhos”, do professor titular da Universidade de Brasília, Amado Luiz Cervo, o país caminhou para um isolacionismo nas décadas pós-anos 50, ou seja, a partir da vitória da democracia das elites no fim dessa década. A Venezuela, mantendo sua doutrina, criticava o regime cubano e os governos militares na América do Sul, arrumando confrontos com esses países; e acabou por voltar-se para os Estados Unidos, o grande consumidor de petróleo venezuelano; mas, também, para o protecionismo, com o objetivo de expandir sua indústria interna, causando mal-estar com os vizinhos. O autor indica as principais diretrizes de sua política externa e sua ação na região durante esse período: “a dependência das exportações de petróleo, cerca de 90% do total; a dependência dos Estados Unidos, principal investidor, cliente e fornecedor, e a repercussão interna dos acontecimentos políticos na área do Caribe” (Cervo, 2001)[2].
Isso vai durar, na verdade, nada mais que uma década, pois, a partir da eleição de Rafael Caldera Rodríguez, em 1968, a doutrina Betancourt não passaria a ser aplicada com tanto afinco, dando prioridade, nos anos 70, a criação de laços com países que poderiam consumir o petróleo produzido pela Venezuela, ou seja, uma visão mais realista do cenário internacional. No entanto, o sucesso do petróleo, causado pelos seus preços exorbitantes nessa época, indicou um retorno ao pensamento bolivariano de liderar a América Latina, integrando-a em torno da Venezuela. Mas, os resultados não foram os esperados: “A Venezuela prosseguirá vivendo de sonho e de ilusão: o sonho bolivariano e a ilusão do petróleo. O primeiro não lhe garantiria a pretendida liderança sobre a América do Sul e a segunda não traria o desenvolvimento social e econômico esperado” (Cervo, 2001).
Somente depois desse duro golpe é que a Venezuela começou a se livrar das amarras do isolacionismo de uma vez por todas a se guiar por “uma orientação realista, que articulava os objetivos da cooperação e da integração com o esforço interno de desenvolvimento”, devido graças a reorientação dos dois partidos que davam as cartas no país àquela época. Essa mudança de visão foi aproveitada pelo Brasil que fez diversos acordos com a Venezuela e Argentina, principalmente nas áreas energética e comercial. “A mudança política regional da Venezuela representou, portanto, injeção de ânimo tanto para os movimentos de integração quanto para a cooperação bilateral entre vizinhos” (Cervo, 2001).
Os problemas chegaram por volta da década de 80, quando do surgimento da recessão que entravou as economias dos países latino-americanos, provocou o aumento nos encargos da dívida externa e a queda nos preços do petróleo, a partir de 1984, devido a grande oferta no mercado mundial. “O comportamento negativo da economia nos anos de 1980 afetou de forma relevante a base material redistributiva do regime venezuelano, fato que mostrava que a eficácia política do Pacto de Punto Fijo estava intrinsecamente atrelada ao comportamento do modelo rentista petrolífero” (Villa, 2005).
Talvez por esse desgaste do modelo de pacto democrático ter sido baseado somente na distribuição dos ganhos obtidos pelo petróleo – lembrando, tudo controlado pelo Estado – a partir de 1989, uma crise política começou a se instalar no país. Carlos Andrés Peres foi eleito no fim de 1988, ainda com a lembrança das elites dele ter governado no período áureo do petróleo, entre 1973-1978. No entanto, ele adotou um pacote de medidas neoliberais[3] para combater os problemas econômicos. Ocorre que essas medidas não foram bem vistas pela fatia mais pobre da Venezuela que acreditava muito mais na intervenção do Estado – que gerava a grande maioria dos empregos – para o bom funcionamento da economia.
Segundo Villa, “o primeiro forte sintoma da instabilidade política do sistema democrático venezuelano” e que foi primordial para arrebentar com as instituições democrática do Pacto de Punto Fijo foi o Caracaço, em 27 de fevereiro de 1989, uma manifestação popular contra as medidas do governo, que teve o protesto reprimido pelos militares, provocando a morte de trezentas pessoas, segundo dados oficiais. Fontes extra-oficiais esticam o número para mais de mil mortos. Já em 1992 há uma tentativa malograda de golpe, liderada pelo então tenente-coronel, Hugo Chávez Frias, agravando a crise política. No ano seguinte, Carlos Andrés Pérez é afastado do governo, acusado de corrupção. Tentou-se um arremedo de reforma para tentar manter as instituições democrático-burguesas, sem o sucesso esperado para manter o sistema sem deformações.
Villa afirma que o enfraquecimento do pacto entre elites provoca um vazio na política do país, que acabou sendo preenchido de forma eloqüente por Chávez. “O radicalismo do discurso chavista, que precede as eleições presidenciais de 1998, transformou-o naquele que melhor interpretava o desejo de mudança popular, tanto em relação à classe política dominante como em relação às suas instituições legadas pela constituição de 1961” (Villa, 2005). E sua vitória, com mais de 58% dos votos válidos em dezembro de 1998, trouxe, na visão do referido autor, mudanças importantes tanto para a política da Venezuela como para a da própria América Latina. O discurso bolivariano volta para ficar, transformando-se num elemento concreto de ação política, seja na arrumação de sua casa, seja no sentido de integrar e formar uma grande nação latino-americana.
Cervo tem uma posição bastante clara a respeito da ascensão de Chávez à presidência venezuelana: “[A vitória] pôs fim a dominação de quarenta anos dos dois partidos conservadores tradicionais, inaugurando um outro modelo político caracterizado pelo nacionalismo social, distinto do conservadorismo tradicional e da malograda experiência neoliberal recente” (Cervo, 2001). Ele conta, ainda, que a política externa desse país foi enfatizada nos vizinhos, segundo palavras do Ministro de relações Exteriores da Venezuela, José Vicente Rangel, tendo quatro áreas básicas para o esforço de sua diplomacia: a atlântica, a caribenha, a andina e a amazônica. “Seus objetivos se desdobrar-se-iam na implementação de importantes projetos de cooperação bilateral e na determinação de contribuir, desde a região, para agilizar os processo de integração. Decidiu, desse modo, o novo Governo venezuelano jogar seu peso político, a força de seu mercado e de seu setor produtivo, particularmente o petrolífero, em favor da união da América Latina (grifo meu)” (Cervo, 2001).
Isso fica evidente, como exemplo, num discurso de Chávez durante a 30ª Cúpula do Mercosul, em que a Venezuela foi oficializada como membro permanente do bloco. Conforme notícia veiculada no site do governo da Venezuela[4], Chávez coloca a importância da efetivação de um mundo “pluripolar”, ou seja, sem uma liderança hegemônica, defendendo uma integração social para que seja consolidada a formação de um bloco do Sul: “A América Latina tem o necessário para ser uma potência mundial (tradução minha)”, disse Chávez, que propõe a formação de uma comissão estratégica que organize e planifique os projetos complementares.
Ele deixa claro, inclusive, que o interesse de seu país é o petróleo, a energia e o gás, e, que essas três peças devem se converter numa ferramenta chave para essa integração, e cita o exemplo do Gasoduto do Sul, projeto entre Brasil, Argentina e Venezuela, para construir um gasoduto gigante que percorra boa parte da América do Sul. Ressaltou, ainda, que o Mercosul pode começar a pensar na elaboração de uma Constituição, de uma moeda comum, de um Banco Central comum. “Há que construir poder, o poder se constrói sobre o espaço, com os povos unidos, com instituições, com institucionalidade, com recursos econômicos, com produção (tradução minha)”, acrescentou o presidente venezuelano. Provavelmente, no fim das contas, a Comunidade Sul-Americana de Nações, é o passo a ser perseguido, pelo menos esse é o discurso de países como Venezuela e Brasil, a respeito da comunidade criada há menos de três anos.
Como outro exemplo, a criação da Alternativa Bolivariana das Américas (ALBA) ano passado, com Cuba e, agora, com a Bolívia, com a formulação de parcerias e acordos cooperativos, voltados principalmente para áreas de maior necessidade, como médicos e educadores cubanos para a Venezuela e petróleo da PDVSA para Cuba, tudo isso indica um passo para uma integração regional, mas, aqui, com um cunho ideológico bastante forte e presente, pelo menos é o que acredita o assessor especial de política externa da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, em entrevista concedida ao jornalista Gilberto Maringoni, em 07 de junho deste ano[5]: “Do ponto de vista comercial, a Alba não é relevante. É um projeto político ideológico muito preciso. Ela nunca foi proposta ao Brasil. (...) A Alba é muito mais um desígnio geral. Se quisermos tomar uma imagem gastronômica, a Alba não é um bife, é o molho. O Mercosul tem uma densidade maior, por contemplar políticas comerciais, econômicas, etc. O que escapar do Mercosul, ficará para a Comunidade Sul-Americana de Nações”.
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[1] Villa, Rafael Duarte. Venezuela: mudanças políticas na era Chávez. Scielo Brasil, 26 de setembro de 2005.
[2] Cervo, Amado Luiz. A Venezuela e Seus Vizinhos. Brasília: UNB, 2001.
[3] Entre as medidas mais (im)populares do neoliberalismo que o governo Pérez aplicou estão: forte ajuste fiscal, privatização das principais empresas estatais, com exceção da petrolífera, e o enxugamento da máquina administrativa do Estado
[4] Herrera, Laura Carolina. El objetivo es conformar um mundo pluripolar. Ministério de Comunicação e Informação do Governo Bolivariano da Venezuela, 21 de julho de 2006.
[5] Maringoni, Gilberto. “Nosso objetivo internacional era integrar a América do Sul. E conseguimos”. VoltaireNet, 07 de junho de 2006.
Obs.: Artigo publicado originalmente na Coluna 35 da Edição 82 da Revista Rabisco.
