Jornalismo e Política

terça-feira, outubro 31, 2006

Votou Errado

Diz uma música de um disco do Devotos: "Votou errado, iludiu, essa é a história do Brasil". Bem, em tempos de eleições, de vitória de um presidente sem partido, levado pelo povo por seu carisma, pelas realizações dele e sua equipe, com uma base social destroçada, envergonhada, um presidente reeleito com ligação popular, -exoperário, político profissional como os outros, sem preocupação ideológica no sentido mais restrito do século passado, com um adversário derrotado que se acha de esquerda, com um partido que se acha à esquerda do espectro político no país, aliado ao PFL, túmulo da Arena e base dos milicos, nada melhor do que pensar na campanha do voto nulo que nunca decolou, apesar do medo infantil dos spammers da internet.

Para tratar um pouco sobre o voto nulo eu escrevi uma coluna na última edição do Rabisco, que pode ser lida no link a seguir: http://www.rabisco.com.br/colunas/caderno0/caderno048.html.

Aguardo reflexões para iniciarmos o debate, caso alguém queira discutir o assunto. No mais, vale como leitura e apreensão de certas coisas, pelo menos foi a conclusão que eu cheguei ao final de escrever essa coluna política num blog de cultura de massas.

Afinal, qual o lado certo para votar? Já passou da hora de as pessoas enxergarem que não há lado certo, que a igualdade da podridão alcançou todas as pontas da geometria política, que corrompe partidos e pessoas em nome de cargos, dinheiro e poder, estuprando qualquer ideal, ideologia, pensamento humanitário, igualitário, revolucionário.

Plano B para a candidatura de Lula

E já que se trata de uma volta em bases anárquicas, reproduzo abaixo um artigo do tucano* Kennedy Alencar, da sucursal de Brasília da Folha de S. Paulo, que trata de uma suposta "bomba atômica" que o PT estaria tramando, caso o candidato picolé de chuchu, conhecido também como Geraldo Alckmin, se aproximasse demais de Lula no segundo turno, uma campanha na TV seria divulgada.

Ao que parece, não se trata de teoria da conspiração não. O PT realmente tinha a carta na manga, que prometia polarizar uma disputa, colocando-se ao lado de uma classe que, como diz aquele quadro imbecil de uma mulher esdrúxula do Zorra Total (programa que subestima a inteligência do brasileiro que não tem dinheiro para ir aos caros restaurantes, teatros e cinemas aos sábados à noite), "já não te pertence mais". Enfim, a elite compra a idéia de um partido de esquerda preocupado com a base social trabalhadora... mas tá certo, o principal problema hoje não é se unir aos operários, mas sim buscar legitimidade política ao financiar pobre, como eles falam, né? Mas é o que o PT faz, mesmo. A Marta fez isso em São Paulo, mas como a capital paulista é uma das cidades mais conservadoras do Brasil, tomou ferro da classe média que não teve CEU perto de casa, por exemplo.

Ocorre que Bolsa-Família não tem fôlego eterno e, se em 2010 entrar um picolé de chuchu (pode ser o José Serra), aí a coisa complica, todos perdem tais rendimentos e os pobres voltam a estaca zero. Isso me preocupa mais do que dar o dinheiro agora, o problema éo que fazer com isso no futuro, principalmente se tal política não tiver continuidade. Mas enfim, esse papo é para outro post, não esse né? Eu só queria trazer um artigo-notícia (é sempre muito difícil sacar na imprensa tradicional o que é notícia e o que é opinião) que está na Folha On Line (e aqui eu sempre publicarei os links de onde tirei, tanto para dar crédito à fonte, como para não passar atestado de spam, fato comum hoje na internet.

30/10/2006 - 09h20
PT pensou em apostar na divisão do país

KENNEDY ALENCARda Folha de S.Paulo, em Brasília

Mantido em segredo, um comercial de TV resume à perfeição a "bomba atômica" da campanha lulista que não precisou ser usada. A peça compõe um arsenal que objetivaria dividir o país entre ricos e pobres. Chamada internamente de "venezuelização" da campanha, o grande trunfo seria uma linha ainda mais agressiva do que a eficazmente utilizada, a de carimbar Geraldo Alckmin e os tucanos como "privatistas".

O comercial mostra uma parede na qual estão pendurados, lado a lado, retratos dos ex-presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubstichek e João Goulart. Por último, um quadro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Enquanto a câmera se movimenta lentamente de uma foto para outra, um locutor diz o seguinte texto:

"Getulio Vargas, o primeiro presidente a defender sinceramente os pobres e as riquezas nacionais. Foi perseguido, caluniado e terminou se suicidando. João Goulart, para os ricos, ele cometeu o mesmo crime, a defesa dos mais pobres. Foi deposto pelos militares. JK defendeu a indústria nacional, gerou empregos. Foi caluniado o tempo todo. Lula, o presidente dos pobres. Eles tentam, eles tentam, mas, desta vez, não vão conseguir vencer a força do povo".

Enquanto o locutor falava, cada um dos retratos estremecia e terminava caindo com grande estardalhaço. Apenas o de Lula se mantinha ao final na parede. Em close, mãos rústicas como as de um trabalhador rural seguravam firmemente o retrato do petista e o impediam de cair. Apresentado a pequenos grupos específicos de eleitores, nas chamadas pesquisas qualitativas, o comercial foi fortemente aprovado, até emocionando algumas pessoas. Está no arquivo da campanha.

A estratégia de divisão do país foi elaborada pelo discreto jornalista João Santana, marqueteiro chamado às pressas em Brasília em agosto de 2005, no auge da crise do mensalão, para ajudar o presidente a enfrentar o escândalo. Desde o ano passado, quando Lula se comparou a Getúlio, Jango e JK, essa estratégia vinha sendo usada com parcimônia. Na campanha, Lula soltou algumas frases nessa linha em palanques, debates e trechos das falas na propaganda eleitoral gratuita. A estratégia "pai dos pobres", num paralelo com o getulismo, passou a ser a linha do discurso e da ação política de Lula desde o final do ano passado. "Conheço o povo e minha relação com ele. Vou ganhar desses tucanos", já dizia Lula no final do ano passado, depois do pior momento do mensalão.

Último recurso

Durante o primeiro turno, quando o presidente esteve perto de liquidar a eleição, a estratégia de "venezuelização" ficou congelada. Santana chegou a fazer programas tentando conquistar a classe média, numa linha propositiva e que dizia que ela ajudava a pagar a conta de programas sociais para os mais pobres. Foi a fase de rebater o argumento do PSDB de que o Bolsa Família seria assistencialista e que Lula não tinha um projeto de país.

A bomba atômica esteve perto de ser usada logo após o primeiro turno, quando o presidente foi surpreendido pelas urnas. Na noite de 1º de outubro, o domingo do primeiro turno, Lula, Santana e ministros acompanhavam a apuração no Palácio da Alvorada. Por volta das 22h, o marqueteiro jogou a toalha. Disse ao presidente que, como temera em conversa na véspera, haveria segundo turno. E repetiu a frase que falara em outros momentos da campanha. Apesar de muito confiante numa vitória na primeira fase, Santana dizia: "Se tiver segundo turno, a gente divide o país e ganha".

Lula e Santana avaliaram, porém, que essa saída deveria ser um último recurso. O próprio Santana advertia que seria arriscada e mais polêmica que a privatização. Uma campanha "divisionista" radicalizaria ainda mais a já dura disputa com a oposição, dificultaria a relação com a imprensa e assustaria o empresariado e a classe média, numa espécie de volta ao discurso do PT pré-2002, quando houve a definitiva guinada ao centro na política e na economia.

Ou seja, poderia ser suficiente para Lula ganhar, mas dificultaria imensamente a governabilidade no "day after". A estratégia poderia ser vista como rendição a teorias conspiratórias na falta de explicações convincentes para o escândalo do dossiegate. Optou-se, então, por esperar o resultado das pesquisas nos dias posteriores, a fim de conferir se o crescimento de Alckmin que o levara à segunda fase era uma onda ainda em crescimento ou se ela já havia se quebrado.

Os levantamentos internos da campanha petista mostravam diferença de oito pontos percentuais entre Lula e Alckmin logo após o segundo turno, o que tranquilizou um pouco o presidente. Mas a decisão final sobre usar ou guardar a "bomba atômica" foi tomada quando o Datafolha divulgou a sua primeira pesquisa na segunda fase, feita nos dias 5 e 6 de outubro. O resultado deu Lula com 50% contra 43% de Alckmin _ou 54% a 46% em intenções de votos válidos.

Diante de um cenário de liderança apertada, Lula e auxiliares decidiram carimbar Alckmin e os tucanos como "privatistas" _na prática, uma linha menos agressiva e camuflada com nuances ideológicas do que uma estratégia explícita de ricos contra pobres. De certa forma, o carimbo da privatização embutia parte dos argumentos da "bomba atômica".

Ao colocar na agenda da campanha o tema das privatizações, "insinuando" que o tucano venderia estatais, como disse Lula no programa de TV "Roda Viva", o marketing petista tinha três objetivos: conquistar um voto "nacionalista/ideológico", fazer comparação com o governo do tucano Fernando Henrique Cardoso (um ponto fraco de Alckmin, de acordo com as pesquisas qualitativas) e relembrar aos mais pobres e menos escolarizados uma dúvida que freqüentemente manifestavam nos levantamentos da campanha do PT (onde teria ido parar o dinheiro da privatização?).

Ao flertar com o voto "nacionalista/ideológico", a campanha lulista buscou o eleitorado que optou por Heloisa Helena (PSOL) e Cristóvam Buarque (PDT) no primeiro turno. Bastaria obter a maioria dos apoiadores desses dois candidatos para liquidar a eleição. Mas a estratégia deu mais certo do que o esperado.

Com a lembrança de várias estatais vendidas nos anos FHC (1995-2002), parcela do eleitorado que optou por Alckmin migrou para Lula. Seria, na avaliação da cúpula do PT, um voto que mais rejeitava o petista do que desejava o tucano. Por último, a privatização virou assunto do eleitorado mais pobre e menos informado, de acordo com pesquisas qualitativas. E com um veredito sempre desfavorável a privatização, pois Alckmin demorou a defender tal política pública.

A campanha do PSDB se tornou refém de uma agenda ditada pelo PT. O dossiegate perdeu força no noticiário na comparação com os últimos dias anteriores a 1º de outubro. E o resultado foi conhecido ontem. Lula se reelegeu com 60,83% dos votos válidos.

Cassius Clay

Sob o impacto da derrota política de não ter levado no primeiro turno, Lula achava que os debates seriam decisivos. Foi o momento da campanha no qual disse que desejava discutir ética e que se julgava preparado para enfrentar Alckmin. No confronto da TV Bandeirantes (8 de outubro), o petista foi surpreendido por um adversários muito mais osso duro de roer do que imaginava.

Ao final do programa, a cara da claque petista era de tristeza. Já os tucanos exultavam. Pesquisas qualitativas do PT e do PSDB, porém, apontaram erros de ambos lados. Alckmin foi agressivo demais. Lula gesticulou em excesso e falou sem clareza. No debate do SBT, o mais morno de todos, o ex-governador baixou o tom. Houve uma espécie de empate nesse dia (19 de outubro).

O debate da Record, em 23 de outubro, foi o mais comemorado por Lula. No dia seguinte, num gesto de evidente exagero, ele se comparava a Cassius Clay, lendário pugilista americano. A um amigo, ele disse que sentiu como Clay na luta contra George Foreman em 1974, no Zaire, quando o primeiro reconquistou o título dos pesos-pesados.

Até então, Foreman havia vencido 37 de 40 lutas por nocaute. Clay adotou uma estratégia de exaurir o adversário, absorvendo golpes. No oitavo assalto, levou Foreman às cordas e o venceu por nocaute.

O presidente disse que sentiu "como Cassis Clay naquela luta" nos momentos em que Alckmin lhe fez duas perguntas nas quais nadou de braçada e encurralou o tucano. Foram os questionamentos sobre o Nordeste e a política externa.

Retirado do link: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u86124.shtml.

* Avaliação do editor deste blog, posso estar enganado. Ou não!

Nota do Editor: Repararam que a escrita está mais solta, com ironias e "piadas"? Eu disse que seria uma volta anárquica.

A volta

Resolvi voltar. Não sei até quando, mas decidi me ocupar com outras coisas, renovar a mente com outros assuntos e este espaço proporciona reflexões importantes. No entanto, como sei que não tenho tempo, muito menos capacidade, para permanecer com a estrutura rígida e disciplinarmente organizada da primeira fase deste blog, resolvi trabalhá-lo de um modo anárquico, indo contra minha raiz comunista (risos).

Não vai mais ter aquela divisão toda, de segunda eu falo disso, terça trato daquilo, etc. Quero trazer o debate para cá, analisando os fatos políticos, tudo que ocorre por aí e por aqui, no Brasil e no mundo, na política e na mídia, que tem feito o papel de primeiríssimo poder, dando até golpe no primeiro turno das eleições presidenciais. É válido e essencial que mantenhamos um canal de reflexão a respeito.

Por isso mesmo, não sei se será diário este blog, se terá texto longo todo dia, etc. Acredito que trarei mais links de outros textos, para que todos possam ler e entender as coisas. Talvez eu coloque comentários a respeito das reportagens, mas de forma mais solta e menos complexa do que fiz, até porque eu não tenho o tempo que eu desejo para essa empreitada. Se eu ganhasse para manter o blog, como muitos jornalistas hoje, aí sim, seria possível.

Mas, enquanto esse oásis não se aproxima, vamos trabalhar com este blog do jeito que der. E, por enquanto, o que dá é eu trazer análises, artigos, notícias, de tudo quanto é canto e tema, para discutirmos sobre o que rege a política deste país. Espero que esta nova caminhada seja mais agradável.