Balanço da vinda do papa Bento 16 ao Brasil
A visita do papa Bento 16 ao Brasil na última semana revelou a importância dada pela Igreja Católica ao país e à América Latina, afinal de contas, o grande e último reduto expressivo de católicos em uma só região se encontra aqui.
O principal mandatário do catolicismo pregou para os jovens a importância da castidade nos relacionamentos, reforçou o celibato sacerdotal, criticou o divórcio e os “desvios sexuais”, defendeu ardorosamente o direito à vida desde a concepção até o seu ocaso (ou seja, foi contra o aborto e a eutanásia em qualquer circunstância), amaldiçoou os traficantes, para que eles pensem no que fazem e que Jesus exigiria uma prestação de contas de seus atos, criticou o que chamou de proselitismo (a conversão a uma crença por convencimento e não por um “ato natural”, de atração da própria religião), atacando ferozmente as igrejas evangélicas/protestantes, repugnou ideologias e a Teologia da Libertação, defendeu a doutrina social e o ajudar via caridade-espírito-assistencialista.
Isto é, reafirmou todo o compromisso da Igreja Católica com o atraso e com o conservadorismo, tão em voga nos últimos tempos, em todo o mundo. O Vaticano ainda tenta avançar seus tentáculos por todas as partes possíveis da sociedade, algo semelhante ao que fazia na Idade Média. É plenamente plausível, pois o catolicismo vem perdendo gritante espaço para o tal “proselitismo” no Brasil, além de perder para a descrença geral do europeu, para o protestantismo nos Estados Unidos, que sempre foi mais forte, sem também conseguir grandes resultados diante das religiões orientais na Ásia.
É uma questão de vida ou morte para a Igreja Católica tentar retomar o quanto possível de seu papel decisório para influenciar cada vez mais massas e, por pressão, governos. Se antigamente o papa tinha um exército para aniquilar seus adversários, hoje ele só tem a palavra e um discurso gasto pelo tempo para tentar convencer povos cada vez mais descrentes, pois o que vêem no cotidiano é só corrupção, destruição e morte, muito longe do amor apregoado por Jesus no Evangelho e que sai da boca vazia de religiosos. Isso recai principalmente na América Latina, cansada de ser aviltada por outros continentes, governantes de aluguel, burguesias e políticos que se encaixam ao capitalismo, ao invés de superá-lo.
Não é a toa que a Teologia da Libertação fez e ainda faz sucesso por aqui. Ligando teoria e prática, pregava a ação, mais do que a palavra dita em discursos prontos meses antes de uma visita, cercada de ritos e rituais, ornamentos e paramentos, formalidades e cerimoniais, nobreza e riqueza, tudo muito distante dos trabalhadores e dos miseráveis. Por mais questionável e repleta de limites que a Teologia da Libertação possui, ao menos buscava – durante os anos 70 e 80 no Brasil – um bem comum, ao invés de cadeiras de madeira, em altares encimados sobre o povo, com textos vazios de prática. As pessoas não querem conversas e palavreados de todo o tipo, elas querem que algo seja feito, antes que elas mesmas o façam.
É visível a insatisfação de diversos setores da sociedade mundial com tudo o que foi visto na semana passada no Brasil. Uma enxurrada de análises e críticas caem todos os dias sobre o papa, por cada centímetro de declaração conservadora que ele protagonizou por estas bandas. A ministra Nilcéia Freire, da Secretaria Especial de Políticas Públicas para as Mulheres, criticou a declaração de Bento 16 de que o Estado deveria adotar políticas públicas para que as mães pudessem cuidar inteiramente dos filhos sem precisar sair de casa. À Folha Online, ela disse: "O papa precisa olhar para o mundo real. Nesse mundo real as mulheres participam da economia dos seus países que precisam do talento, da qualificação e da mão de obra feminina".
Jornais de todo o mundo bombardearam o posicionamento do Vaticano a respeito dos povos indígenas, de que os índios aguardavam o cristianismo e que este não foi uma imposição aos povos pré-colombianos, que não teriam tido suas culturas e crenças alienadas. “Então provavelmente no início de outubro de 1492, entre o México e a Terra do Fogo as pessoas ficavam olhando para o mar, pensando 'Onde estão eles? Quando é que nós índios finalmente vamos poder ser cristãos?'", ironiza o jornal alemão Süddeutsche Zeitung. Outra crítica veio da ministra dos Povos Indígenas da Venezuela, Nizia Maldonado: "A invasão imperial trouxe o maior genocídio da América Latina. Gostaria que um sacerdote saísse e dissesse que se envergonha ao ouvir que dizem que os povos indígenas estavam esperando a evangelização", disse, em entrevista a uma emissora estatal da Venezuela. Essa declaração do papa também acabou por abafar o pedido de desculpas de João Paulo 2º pelas atrocidades cometidas em nome de Jesus contra os povos do subcontinente.
Tudo isso sem falar nas demais críticas, feitas abertamente por parte da sociedade civil e imprensa mundiais, excetuando-se a brasileira, que é conservadora em seu cerne e, no fundo, defende boa parte dos dogmas vociferados pelo ex-cardeal de 80 anos. A intransigente posição sobre o aborto, a ausente visão de entender o que causam os divórcios e qual o problema em relação às pessoas que encaram esse tipo de situação, a falta de uma compreensão mais profunda e fecunda do porquê do avanço de outras religiões e crenças, que vêm engolindo a religião católica, inclusive no Brasil e América Latina. O catolicismo não reconhece seus erros, suas posições que vão contra o que se busca hoje e não percebe seu natural desgaste de séculos.
Prefere apontar os defeitos dos outros, atacar aos quatro cantos e defender a posição da igreja como a única forma de salvação do ser humano, ao invés de olhar para dentro de si e rever todos os conceitos que a igreja formulou de forma obscura em seus primórdios e que não consegue mais responder aos anseios da humanidade no terceiro milênio. Depois questionam a razão que levou a um público menor que o esperado na missa dominical, em Aparecida. Não é só uma questão de carisma papal que o atual não possui em relação ao anterior. Trata-se de uma série de reflexões que, cada vez mais, as pessoas têm feito sobre os rumos das religiões em suas vidas. Não é a toa que boa parte dos católicos brasileiros são a favor da camisinha, principalmente os jovens. Não é a toa que boa parte das mulheres é a favor do aborto de acordo com a legislação brasileira, na qual o Vaticano é contra, de ser permitido em caso de estupro ou quando a mulher corre risco de vida. Eles preferem excomungar quem liberou o aborto na Cidade do México e quem luta a favor desta causa na Colômbia.
Até por isso, é ilusão crer, como alguns crêem, que o número de católicos têm aumentado, as pesquisas estão aí para provarem o contrário. E, se avaliar profundamente cada católico, será possível ver que falta compromisso com a maior parte deles. Não é a toa que no Brasil existe o termo praticante, aliado à palavra católico. Sempre quando alguém pergunta a outrem sobre qual religião pertence e a resposta liga à Igreja Católica, vem uma nova pergunta: praticante ou não? E a maioria das respostas que ouço é “não praticante”.
No dia em que as pessoas começarem a praticar outras coisas que não a religião, esse tipo de visita vazia, feita para marcar protocolo de chefe de estado (afinal, o Vaticano é um Estado como o Brasil e, por isso mesmo, a pressão toda para a regulamentação da Igreja Católica no país), para fazer festa, esquecer dos problemas da nação e pressionar os religiosos brasileiros a seguirem a cartilha de Roma (que, por mais que o clero tupiniquim seja conservador, ainda segue rotinas vistas com olhos virados pela Santa Sé), seja menos alardeada pela imprensa e cada vez menos seguida pela população, que tem muitas outras prioridades a buscar, por conta própria, do que jogar na mão de um papa ou de alguma entidade sobrenatural o destino e a sorte de sua própria vida.
O principal mandatário do catolicismo pregou para os jovens a importância da castidade nos relacionamentos, reforçou o celibato sacerdotal, criticou o divórcio e os “desvios sexuais”, defendeu ardorosamente o direito à vida desde a concepção até o seu ocaso (ou seja, foi contra o aborto e a eutanásia em qualquer circunstância), amaldiçoou os traficantes, para que eles pensem no que fazem e que Jesus exigiria uma prestação de contas de seus atos, criticou o que chamou de proselitismo (a conversão a uma crença por convencimento e não por um “ato natural”, de atração da própria religião), atacando ferozmente as igrejas evangélicas/protestantes, repugnou ideologias e a Teologia da Libertação, defendeu a doutrina social e o ajudar via caridade-espírito-assistencialista.
Isto é, reafirmou todo o compromisso da Igreja Católica com o atraso e com o conservadorismo, tão em voga nos últimos tempos, em todo o mundo. O Vaticano ainda tenta avançar seus tentáculos por todas as partes possíveis da sociedade, algo semelhante ao que fazia na Idade Média. É plenamente plausível, pois o catolicismo vem perdendo gritante espaço para o tal “proselitismo” no Brasil, além de perder para a descrença geral do europeu, para o protestantismo nos Estados Unidos, que sempre foi mais forte, sem também conseguir grandes resultados diante das religiões orientais na Ásia.
É uma questão de vida ou morte para a Igreja Católica tentar retomar o quanto possível de seu papel decisório para influenciar cada vez mais massas e, por pressão, governos. Se antigamente o papa tinha um exército para aniquilar seus adversários, hoje ele só tem a palavra e um discurso gasto pelo tempo para tentar convencer povos cada vez mais descrentes, pois o que vêem no cotidiano é só corrupção, destruição e morte, muito longe do amor apregoado por Jesus no Evangelho e que sai da boca vazia de religiosos. Isso recai principalmente na América Latina, cansada de ser aviltada por outros continentes, governantes de aluguel, burguesias e políticos que se encaixam ao capitalismo, ao invés de superá-lo.
Não é a toa que a Teologia da Libertação fez e ainda faz sucesso por aqui. Ligando teoria e prática, pregava a ação, mais do que a palavra dita em discursos prontos meses antes de uma visita, cercada de ritos e rituais, ornamentos e paramentos, formalidades e cerimoniais, nobreza e riqueza, tudo muito distante dos trabalhadores e dos miseráveis. Por mais questionável e repleta de limites que a Teologia da Libertação possui, ao menos buscava – durante os anos 70 e 80 no Brasil – um bem comum, ao invés de cadeiras de madeira, em altares encimados sobre o povo, com textos vazios de prática. As pessoas não querem conversas e palavreados de todo o tipo, elas querem que algo seja feito, antes que elas mesmas o façam.
É visível a insatisfação de diversos setores da sociedade mundial com tudo o que foi visto na semana passada no Brasil. Uma enxurrada de análises e críticas caem todos os dias sobre o papa, por cada centímetro de declaração conservadora que ele protagonizou por estas bandas. A ministra Nilcéia Freire, da Secretaria Especial de Políticas Públicas para as Mulheres, criticou a declaração de Bento 16 de que o Estado deveria adotar políticas públicas para que as mães pudessem cuidar inteiramente dos filhos sem precisar sair de casa. À Folha Online, ela disse: "O papa precisa olhar para o mundo real. Nesse mundo real as mulheres participam da economia dos seus países que precisam do talento, da qualificação e da mão de obra feminina".
Jornais de todo o mundo bombardearam o posicionamento do Vaticano a respeito dos povos indígenas, de que os índios aguardavam o cristianismo e que este não foi uma imposição aos povos pré-colombianos, que não teriam tido suas culturas e crenças alienadas. “Então provavelmente no início de outubro de 1492, entre o México e a Terra do Fogo as pessoas ficavam olhando para o mar, pensando 'Onde estão eles? Quando é que nós índios finalmente vamos poder ser cristãos?'", ironiza o jornal alemão Süddeutsche Zeitung. Outra crítica veio da ministra dos Povos Indígenas da Venezuela, Nizia Maldonado: "A invasão imperial trouxe o maior genocídio da América Latina. Gostaria que um sacerdote saísse e dissesse que se envergonha ao ouvir que dizem que os povos indígenas estavam esperando a evangelização", disse, em entrevista a uma emissora estatal da Venezuela. Essa declaração do papa também acabou por abafar o pedido de desculpas de João Paulo 2º pelas atrocidades cometidas em nome de Jesus contra os povos do subcontinente.
Tudo isso sem falar nas demais críticas, feitas abertamente por parte da sociedade civil e imprensa mundiais, excetuando-se a brasileira, que é conservadora em seu cerne e, no fundo, defende boa parte dos dogmas vociferados pelo ex-cardeal de 80 anos. A intransigente posição sobre o aborto, a ausente visão de entender o que causam os divórcios e qual o problema em relação às pessoas que encaram esse tipo de situação, a falta de uma compreensão mais profunda e fecunda do porquê do avanço de outras religiões e crenças, que vêm engolindo a religião católica, inclusive no Brasil e América Latina. O catolicismo não reconhece seus erros, suas posições que vão contra o que se busca hoje e não percebe seu natural desgaste de séculos.
Prefere apontar os defeitos dos outros, atacar aos quatro cantos e defender a posição da igreja como a única forma de salvação do ser humano, ao invés de olhar para dentro de si e rever todos os conceitos que a igreja formulou de forma obscura em seus primórdios e que não consegue mais responder aos anseios da humanidade no terceiro milênio. Depois questionam a razão que levou a um público menor que o esperado na missa dominical, em Aparecida. Não é só uma questão de carisma papal que o atual não possui em relação ao anterior. Trata-se de uma série de reflexões que, cada vez mais, as pessoas têm feito sobre os rumos das religiões em suas vidas. Não é a toa que boa parte dos católicos brasileiros são a favor da camisinha, principalmente os jovens. Não é a toa que boa parte das mulheres é a favor do aborto de acordo com a legislação brasileira, na qual o Vaticano é contra, de ser permitido em caso de estupro ou quando a mulher corre risco de vida. Eles preferem excomungar quem liberou o aborto na Cidade do México e quem luta a favor desta causa na Colômbia.
Até por isso, é ilusão crer, como alguns crêem, que o número de católicos têm aumentado, as pesquisas estão aí para provarem o contrário. E, se avaliar profundamente cada católico, será possível ver que falta compromisso com a maior parte deles. Não é a toa que no Brasil existe o termo praticante, aliado à palavra católico. Sempre quando alguém pergunta a outrem sobre qual religião pertence e a resposta liga à Igreja Católica, vem uma nova pergunta: praticante ou não? E a maioria das respostas que ouço é “não praticante”.
No dia em que as pessoas começarem a praticar outras coisas que não a religião, esse tipo de visita vazia, feita para marcar protocolo de chefe de estado (afinal, o Vaticano é um Estado como o Brasil e, por isso mesmo, a pressão toda para a regulamentação da Igreja Católica no país), para fazer festa, esquecer dos problemas da nação e pressionar os religiosos brasileiros a seguirem a cartilha de Roma (que, por mais que o clero tupiniquim seja conservador, ainda segue rotinas vistas com olhos virados pela Santa Sé), seja menos alardeada pela imprensa e cada vez menos seguida pela população, que tem muitas outras prioridades a buscar, por conta própria, do que jogar na mão de um papa ou de alguma entidade sobrenatural o destino e a sorte de sua própria vida.
