OUTRA OPINIÃO - 12.08.06
Espanha - 1936-2006: A Batalha da Memória
Mário Maestri
Espanha, inícios dos anos 1930. Nos campos, dominavam os grandes latifúndios e, nas cidades, o trabalho escasso e mal pago. A indústria espanhola era limitada e concentrada na Catalunha. A monarquia, o Exército e a Igreja apoiavam sem travas os grandes proprietários. Sob o beneplácito real, ditadura militar impunha dura repressão à a população, enquanto crescia no país pujante o movimento popular de orientação sobretudo anarquista e socialista.
Em 1931, a esquerda vergou a ditadura, venceu as eleições, instaurou a República sendo, porém, derrotada em 1933, devido à defecção dos anarquistas, que se opunham às eleições e criticava o imobilismo governamental. O retorno da direita motivou levantes por toda a Espanha, com destaque para a insurreição nas Astúrias, onde anarquista e socialistas unidos mantiveram-se no poder por duas semanas. A repressão da rebelião causou 30 mil presos. Em fevereiro de 1936, Frente Popular reformista, conformado por socialistas, comunistas, democratas, autonomistas galegos, bascos e catalães venceu as eleições, com o voto dos anarquistas, que contavam com a anistia de seus presos.
A direita prepara-se para a insurreição, caso perdesse as eleições. O levante fascista eclodiu em 18 de julho de 1936, sob a chefia do general Franco, pois o ex-ditador e líder falangista Primo de Rivera morrera em 1930. Apoiado pelo Exército, pelo Vaticano, pelos grandes proprietários, o golpe visava pôr fim ao movimento popular e à luta pela autonomista das nacionalidades ibéricas. Na península, apenas os portugueses haviam escapado ao duro tacão castelhano, que impunha sua hegemonia e sua língua às outras nacionalidades.
Diante do golpe falangista e a imobilidade do governo, operários e camponeses levantaram-se em armas através da Espanha, com destaque para Aragão e Catalunha, onde a insurreição transformou-se imediatamente em revolução, sob a direção dos anarquistas e marxistas revolucionários. Sob grande mobilização social, a economia foi coletivizada e hospitais, padarias, farmácia, barbearias, transportes, indústrias, etc. passaram a ser geridos por conselhos operários. A nova ordem organizou-se para pôr fim à exploração, à miséria, ao desemprego. A produção foi posta a serviço da defesa da república e da revolução, e milícias de trabalhadoras e trabalhadores partiram em direção a Saragoça, nas mãos dos fascistas. Nos campos, a coletivização da terra expandiu fortemente a produção rural. A própria linguagem foi revolucionada, trocando-se o místico "adeus" pelo plebeu "saúde"!
A Itália fascista, a Alemanha nazista e Portugal salazarista enviaram recursos financeiros, armas e homens aos franquistas. Receando a revolução que parecia também se alastrar na Europa e tentando contemporizar com Hitler, os governos da Inglaterra e da França negaram-se a vender armas à República, obrigada as obtê-las, poucas e caras, na URSS. Temeroso de aliança da França e Inglaterra à Alemanha, Stalin militou incessantemente para que a luta republicana não se transformasse em revolução socialista. Para tal, terminou ordenando o massacre de anarquistas e trotskistas na Catalunha e a extinção, na ponta do fuzil, das coletividades rurais. Mais tarde, após a guerra, ordenou a execução dos seus agentes na Espanha, para encobrir seus crimes.
Em defesa da República, anarquistas, socialistas, comunistas, democratas, antifascistas de todo o mundo ocorreram à Espanha para formar as Brigadas Internacionais. Dos quarenta mil brigadistas, de mais de cinqüenta países, pouco mais de mil eram latino-americanos, sobretudo mexicanos e cubanos. Nas Brigadas lutaram uns trinta brasileiros, entre eles o jovem oficial do Exército e militante comunista Apolônio de Carvalho. Entre os mais célebres brigadistas encontravam-se Hemingway, Malraux, Saint-Exupéry, Benjamin Péret e George Orwell, que registrou seu combate nas filas do POUM e o massacre stalinista da Catalunha, em Recordações da Catalunha, livro que inspirou o também dilacerante filme de Ken Loach [1995] "Terra e liberdade!" O trotskista francês Benjamin Péret, ligado ao Brasil e autor do ensaio "O que foi o quilombo dos Palmares?", um dos primeiros internacionalistas a chegar à Espanha, trabalhou nos programas em língua portuguesa da rádio do POUM.
Isolada, mal armada, reprimida desde suas entranhas, frustrada nos seus objetivos sociais, a República caiu em 1939. O conflito ceifou mais de quatrocentas mil vidas. Então, Franco proclamou-se "Caudilho de Espanha pela graça de Deus", restabeleceu a monarquia, lançou a noite sobre a Espanha por quarenta anos. Findo os combates, mortandade ainda maior abateu-se sobre população que seguiu resistindo, como pode, enquanto pode. Na Galícia, onde a resistência deu-se sob a forma de guerrilha, já que a região fora conquistada pelos fascistas no início da guerra, mais de cem mil nacionais foram executados para sufocar resistência que se extinguiu apenas em 1967. O franquismo vitimou um milhão e meio de espanhóis.
Primeiro, Franco impôs isolamento autárquico que prostrou a economia do país. A seguir, entregou-se ao imperialismo estadunidense que lhe garantiu capitais para industrialização dependente do país e a cumplicidade do Ocidente para com sua obra espanhola. Como ordenara, dois dias após sua morte, em 23 de novembro de 1975, Juan Carlos I foi entronizado, sob asa do almirante Carrero Blanco, seu fiel escudeiro, justiçado em 20 de dezembro, por ação do ETA, que pôs fim em forma inapelável ao projeto de franquismo sem Franco.
De 1975 a 1982, a transição democrática foi comandada pelo rei, pelas forças armadas, pelos grandes proprietários e dirigentes políticos franquistas que migravam aceleradamente para novos partidos democráticos. Com o apoio de direções comunistas do PCE e socialistas do PSOE, a monarquia foi mantida e os crimes do franquismo, anistiados. A expressão "franquismo sociológico" passou a designar no país a continuidade do antigo regime metamorfoseado sob a nova ordem.
Desde sempre, o franquismo lutou com todas as suas armas para aprisionar as consciências. Serviu-se do ensino, da história, de monumentos, de efemérides, dos nomes de ruas, praças, estádios, etc. para lançar no olvido a República e a Revolução, seus heróis e ideais, e entranhar para sempre na memória popular como justos, únicos e nacionais os valores que impusera no passado pelo terror e morte.
Em sentido contrário, desde o fim da guerra e sobretudo após a transição, a difícil luta pela memória da República e punição, simbólica e política que fosse, do franquismo, conheceu a forte e permanente oposição da direita, da monarquia, da Igreja e a enorme lassidão do PSOE no poder. Porém, no País Basco e na Catalunha, associações de familiares de vitimados apagaram, um após o outro, os traços do franquismo, sobrando hoje apenas umas três estátuas de Franco e alguns nomes de ruas para serem abatidas e trocados.
Sobretudo desde 2000, a luta pela defesa da memória republicana ganhou força com a exigência da procura, exumação e identificação dos mais de trinta mil fuzilados que jazem ainda em valas comuns, muitas jamais localizadas. Eram em geral netos lutando orgulhos em defesa da memória dos seus avós republicanos, socialistas, comunistas e autonomistas.
Antes das eleições, o PSOE prometeu ampla lei sobre a memória. Já no governo, em pleno transcurso dos setenta anos da Revolução, José Luis Zapatero, que teve o avô fuzilado, apresentou projeto de lei fortemente criticado pela timidez: não anula as sentenças militares, como a do presidente do governo catalão, Luis Companys, fuzilado após 55 minutos de julgamento, nem propõe a exumação e identificação dos massacrados, medida apoiada por 64,5% e rejeitada apenas por 25,6% dos espanhóis.
A batalha pela memória se fortalece na Espanha. Sua grande meta simbólica segue sendo a destruição do sinistro mausoléu do Vale dos Caídos que Franco construiu para Primo de Rivera e para si com o trabalho forçado dos próprios derrotados. A batalha pela memória não é luta historiográfica revanchista, despida de sentido social, que retoma confrontos já superados, que devem ser esquecidas, para a pacificação e convivência contemporânea. Ao contrário, é embate dado pelo presente, que retoma os valores dos combatentes pretéritos sobretudo para que a obra dos algozes dos direitos dos povos não seja legitimada, facilitando e reforçando assim a incessante ação de seus herdeiros e sucessores nos dias atuais.
No Brasil, mais de vinte anos a pós o fim do regime militar, os ditadores são registrados na documentação oficial como presidentes e milhares de ruas, avenidas, praças, estádios seguem portando seus nomes e de seus asseclas e súcubos, que jamais foram punidos por seus crimes, legitimando no passado e no presente em forma inaceitável a violação dos direitos sociais e democráticos dos brasileiros e ofendendo despudoradamente aqueles que se levantaram contra a ordem ditatorial imposta pelo grande capital.
* Mário Maestri, 58, é historiador e professor da UPF. Escreveu com Gino Candreva Antonio Gramsci: vida e obra de um comunista revolucionário. [São Paulo: Expressão Popular, 2002.] E-mail: maestri@via-rs.net
Mário Maestri
Espanha, inícios dos anos 1930. Nos campos, dominavam os grandes latifúndios e, nas cidades, o trabalho escasso e mal pago. A indústria espanhola era limitada e concentrada na Catalunha. A monarquia, o Exército e a Igreja apoiavam sem travas os grandes proprietários. Sob o beneplácito real, ditadura militar impunha dura repressão à a população, enquanto crescia no país pujante o movimento popular de orientação sobretudo anarquista e socialista.
Em 1931, a esquerda vergou a ditadura, venceu as eleições, instaurou a República sendo, porém, derrotada em 1933, devido à defecção dos anarquistas, que se opunham às eleições e criticava o imobilismo governamental. O retorno da direita motivou levantes por toda a Espanha, com destaque para a insurreição nas Astúrias, onde anarquista e socialistas unidos mantiveram-se no poder por duas semanas. A repressão da rebelião causou 30 mil presos. Em fevereiro de 1936, Frente Popular reformista, conformado por socialistas, comunistas, democratas, autonomistas galegos, bascos e catalães venceu as eleições, com o voto dos anarquistas, que contavam com a anistia de seus presos.
A direita prepara-se para a insurreição, caso perdesse as eleições. O levante fascista eclodiu em 18 de julho de 1936, sob a chefia do general Franco, pois o ex-ditador e líder falangista Primo de Rivera morrera em 1930. Apoiado pelo Exército, pelo Vaticano, pelos grandes proprietários, o golpe visava pôr fim ao movimento popular e à luta pela autonomista das nacionalidades ibéricas. Na península, apenas os portugueses haviam escapado ao duro tacão castelhano, que impunha sua hegemonia e sua língua às outras nacionalidades.
Diante do golpe falangista e a imobilidade do governo, operários e camponeses levantaram-se em armas através da Espanha, com destaque para Aragão e Catalunha, onde a insurreição transformou-se imediatamente em revolução, sob a direção dos anarquistas e marxistas revolucionários. Sob grande mobilização social, a economia foi coletivizada e hospitais, padarias, farmácia, barbearias, transportes, indústrias, etc. passaram a ser geridos por conselhos operários. A nova ordem organizou-se para pôr fim à exploração, à miséria, ao desemprego. A produção foi posta a serviço da defesa da república e da revolução, e milícias de trabalhadoras e trabalhadores partiram em direção a Saragoça, nas mãos dos fascistas. Nos campos, a coletivização da terra expandiu fortemente a produção rural. A própria linguagem foi revolucionada, trocando-se o místico "adeus" pelo plebeu "saúde"!
A Itália fascista, a Alemanha nazista e Portugal salazarista enviaram recursos financeiros, armas e homens aos franquistas. Receando a revolução que parecia também se alastrar na Europa e tentando contemporizar com Hitler, os governos da Inglaterra e da França negaram-se a vender armas à República, obrigada as obtê-las, poucas e caras, na URSS. Temeroso de aliança da França e Inglaterra à Alemanha, Stalin militou incessantemente para que a luta republicana não se transformasse em revolução socialista. Para tal, terminou ordenando o massacre de anarquistas e trotskistas na Catalunha e a extinção, na ponta do fuzil, das coletividades rurais. Mais tarde, após a guerra, ordenou a execução dos seus agentes na Espanha, para encobrir seus crimes.
Em defesa da República, anarquistas, socialistas, comunistas, democratas, antifascistas de todo o mundo ocorreram à Espanha para formar as Brigadas Internacionais. Dos quarenta mil brigadistas, de mais de cinqüenta países, pouco mais de mil eram latino-americanos, sobretudo mexicanos e cubanos. Nas Brigadas lutaram uns trinta brasileiros, entre eles o jovem oficial do Exército e militante comunista Apolônio de Carvalho. Entre os mais célebres brigadistas encontravam-se Hemingway, Malraux, Saint-Exupéry, Benjamin Péret e George Orwell, que registrou seu combate nas filas do POUM e o massacre stalinista da Catalunha, em Recordações da Catalunha, livro que inspirou o também dilacerante filme de Ken Loach [1995] "Terra e liberdade!" O trotskista francês Benjamin Péret, ligado ao Brasil e autor do ensaio "O que foi o quilombo dos Palmares?", um dos primeiros internacionalistas a chegar à Espanha, trabalhou nos programas em língua portuguesa da rádio do POUM.
Isolada, mal armada, reprimida desde suas entranhas, frustrada nos seus objetivos sociais, a República caiu em 1939. O conflito ceifou mais de quatrocentas mil vidas. Então, Franco proclamou-se "Caudilho de Espanha pela graça de Deus", restabeleceu a monarquia, lançou a noite sobre a Espanha por quarenta anos. Findo os combates, mortandade ainda maior abateu-se sobre população que seguiu resistindo, como pode, enquanto pode. Na Galícia, onde a resistência deu-se sob a forma de guerrilha, já que a região fora conquistada pelos fascistas no início da guerra, mais de cem mil nacionais foram executados para sufocar resistência que se extinguiu apenas em 1967. O franquismo vitimou um milhão e meio de espanhóis.
Primeiro, Franco impôs isolamento autárquico que prostrou a economia do país. A seguir, entregou-se ao imperialismo estadunidense que lhe garantiu capitais para industrialização dependente do país e a cumplicidade do Ocidente para com sua obra espanhola. Como ordenara, dois dias após sua morte, em 23 de novembro de 1975, Juan Carlos I foi entronizado, sob asa do almirante Carrero Blanco, seu fiel escudeiro, justiçado em 20 de dezembro, por ação do ETA, que pôs fim em forma inapelável ao projeto de franquismo sem Franco.
De 1975 a 1982, a transição democrática foi comandada pelo rei, pelas forças armadas, pelos grandes proprietários e dirigentes políticos franquistas que migravam aceleradamente para novos partidos democráticos. Com o apoio de direções comunistas do PCE e socialistas do PSOE, a monarquia foi mantida e os crimes do franquismo, anistiados. A expressão "franquismo sociológico" passou a designar no país a continuidade do antigo regime metamorfoseado sob a nova ordem.
Desde sempre, o franquismo lutou com todas as suas armas para aprisionar as consciências. Serviu-se do ensino, da história, de monumentos, de efemérides, dos nomes de ruas, praças, estádios, etc. para lançar no olvido a República e a Revolução, seus heróis e ideais, e entranhar para sempre na memória popular como justos, únicos e nacionais os valores que impusera no passado pelo terror e morte.
Em sentido contrário, desde o fim da guerra e sobretudo após a transição, a difícil luta pela memória da República e punição, simbólica e política que fosse, do franquismo, conheceu a forte e permanente oposição da direita, da monarquia, da Igreja e a enorme lassidão do PSOE no poder. Porém, no País Basco e na Catalunha, associações de familiares de vitimados apagaram, um após o outro, os traços do franquismo, sobrando hoje apenas umas três estátuas de Franco e alguns nomes de ruas para serem abatidas e trocados.
Sobretudo desde 2000, a luta pela defesa da memória republicana ganhou força com a exigência da procura, exumação e identificação dos mais de trinta mil fuzilados que jazem ainda em valas comuns, muitas jamais localizadas. Eram em geral netos lutando orgulhos em defesa da memória dos seus avós republicanos, socialistas, comunistas e autonomistas.
Antes das eleições, o PSOE prometeu ampla lei sobre a memória. Já no governo, em pleno transcurso dos setenta anos da Revolução, José Luis Zapatero, que teve o avô fuzilado, apresentou projeto de lei fortemente criticado pela timidez: não anula as sentenças militares, como a do presidente do governo catalão, Luis Companys, fuzilado após 55 minutos de julgamento, nem propõe a exumação e identificação dos massacrados, medida apoiada por 64,5% e rejeitada apenas por 25,6% dos espanhóis.
A batalha pela memória se fortalece na Espanha. Sua grande meta simbólica segue sendo a destruição do sinistro mausoléu do Vale dos Caídos que Franco construiu para Primo de Rivera e para si com o trabalho forçado dos próprios derrotados. A batalha pela memória não é luta historiográfica revanchista, despida de sentido social, que retoma confrontos já superados, que devem ser esquecidas, para a pacificação e convivência contemporânea. Ao contrário, é embate dado pelo presente, que retoma os valores dos combatentes pretéritos sobretudo para que a obra dos algozes dos direitos dos povos não seja legitimada, facilitando e reforçando assim a incessante ação de seus herdeiros e sucessores nos dias atuais.
No Brasil, mais de vinte anos a pós o fim do regime militar, os ditadores são registrados na documentação oficial como presidentes e milhares de ruas, avenidas, praças, estádios seguem portando seus nomes e de seus asseclas e súcubos, que jamais foram punidos por seus crimes, legitimando no passado e no presente em forma inaceitável a violação dos direitos sociais e democráticos dos brasileiros e ofendendo despudoradamente aqueles que se levantaram contra a ordem ditatorial imposta pelo grande capital.
* Mário Maestri, 58, é historiador e professor da UPF. Escreveu com Gino Candreva Antonio Gramsci: vida e obra de um comunista revolucionário. [São Paulo: Expressão Popular, 2002.] E-mail: maestri@via-rs.net

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