Jornalismo e Política

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Férias

Este blog entrará em férias a partir de hoje para repor as energias de um desgastante 2006 e promete voltar na segunda semana de janeiro com mais análises políticas e notícias alternativas dos meios de comunicação tradicionais.

Obrigado a todos que lêem este espaço e que 2007 seja o melhor ano de nossas vidas.

Forte abraço.

Rodrigo Herrero

Supersalário é adiado para 2007

Enfim, a pressão da sociedade resultou em alguma coisa. O aumento foi deixado de lado e só deverá ser discutido em 2007. E olha que nem deveria voltar a esse assunto. Esquece, acaba com isso e com os 15 mil reais de cerba de gabinete que levantaram para compensar o abuso do salário de 24 mil reais. Ou seja, uma compensação desejavam, deixa com os 24, mas retira o outro de 15. Retira tudo que ainda assim vai ficar muito para o bolso desses políticos.

Ao menos os deputados e senadores perderam essa batalha e não vão ter essa moleza. Agora é manter a pressão para que não aocntece o que normalmente ocorre quando algum parlamentar pode ser cassado: deixam a poeira baixar, quando ninguém mais fala no assunto, eles vão lá e decidem pra eles, se locupletando, sem caminho de volta. Que todos nós, pois, não deixemos acontecer mais isso.

Veja abaixo a reportagem da Folha de S. Paulo sobre o assunto.

Sob pressão, Câmara adia decisão sobre o aumento

Possibilidade de votar hoje é quase nula; novo salário só deve ser definido em 2007

Após o veto do Supremo, parlamentares recuam em relação ao reajuste de 91% e não conseguem chegar a consenso sobre o que votar

LETÍCIA SANDER
FERNANDA KRAKOVICS
ADRIANO CEOLIN
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Depois de seis dias de intensa pressão, o Congresso Nacional descartou reajustar neste ano os próprios salários em 91% e deixou para 2007 a decisão sobre qual aumento adotará.O adiamento foi sacramentado depois de uma reunião de quase duas horas a portas fechadas, no início da tarde, em que líderes partidários e integrantes da Mesa da Câmara não conseguiram se entender.

Após uma madrugada de negociações, já estava claro àquela altura que não havia clima para aprovar a equiparação com o salário dos ministros do STF, hoje de R$ 24,5 mil, e nem mesmo um aumento de R$ 16,5 mil, a segunda alternativa.

À noite, em plenário, ensaiou-se uma reviravolta, depois de um discurso do líder do PSDB, Jutahy Júnior (BA): "É nosso dever votar esta questão hoje. Não temos porque nos envergonhar de um aumento baseado nos índices de inflação. Nossa preocupação é não contaminar a outra Legislatura com esse mesmo debate".

Quatro partidos chegaram a discutir a possibilidade de recolocar o reajuste de R$ 16,5 mil em pauta ontem, mas a articulação acabou não vingando."Se o acordo fosse feito, eu não me oporia, mas fui radicalmente contra porque não há clima", argumentou o líder do PFL, Rodrigo Maia (RJ).

Hoje, Câmara e Senado ainda devem ter sessões de votação. Mas a avaliação predominante era de que o reajuste não entraria em pauta, por falta de acordo e de quórum. Amanhã, encerram-se os trabalhos de 2006 no Congresso.

Ao entrarem em férias sem ter definido qualquer reajuste, os parlamentares amargam um grande recuo. Na quinta-feira passada, a cúpula do Congresso havia aprovado um aumento de 91% nos próprios salários. Mas uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) obrigando que o tema fosse votado nos plenários da Câmara e do Senado deu início ao revés.

Sem consenso

A falta de consenso em torno das propostas existentes e o temor de que, em vez de lucrarem com as mudanças, os parlamentares acabassem sendo prejudicados pela eventual derrubada de verbas extras, hoje garantidas por lei, acabou de vez com a idéia do reajuste em 2006. O aparente consenso em torno da reposição inflacionária ruiu exatamente quando temas polêmicos foram inseridos no debate, na reunião ocorrida pela manhã, na Câmara.

O líder do PDT, deputado Miro Teixeira (RJ), afirmou que só seria favorável a discutir um aumento caso se tratasse do fim dos R$ 15 mil mensais para manutenção de escritório nos Estados, uma das várias verbas extras que os parlamentares têm direito além do salário.

Partidos que defendem a manutenção da verba, como o PSOL, o PV e o PTB, foram contra. Relatos dos presentes indicam que o clima na reunião foi tenso. "Nunca havia visto o Aldo tão nervoso", disse o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ). "Ele [Aldo] se levantou e simplesmente disse "ao plenário'", contou o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ).

O comunista levou todas as polêmicas para o plenário. Os parlamentares chegaram a discutir durante duas horas, à noite, o futuro da verba de R$ 15 mil, e começaram a debater a possibilidade de acabar com o 14º e o 15º salários. Mas o tema foi retirado de pauta.

A avaliação no Congresso é de que o debate sobre o reajuste foi contaminado pela disputa das presidências das duas Casas, em fevereiro. Aldo e Renan Calheiros (PMDB-AL) são candidatos à reeleição.

Eleição para a Mesa

"Não há condição ética de votar matéria com este grau de complexidade quando há gente fazendo proposta porque é candidato", criticou o líder do PSB, Alexandre Cardoso (RJ).

Outro pré-candidato à presidência da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), também defendia que tudo fosse votado ainda ontem.Para ser aprovado, o aumento precisava ser votado tanto na Câmara quanto no Senado. Os senadores simplesmente concordaram, quando informados de que a decisão deveria ficar para a próxima Legislatura, sob o argumento de que não havia mais clima para esta discussão.

"Acho a decisão boa. É melhor que a próxima legislatura decida sobre isso para definirmos com bom senso, racionalidade e equilíbrio", disse Renan, que contudo passou a maior parte do dia defendendo a votação do aumento ainda ontem.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Salário da vergonha

No dia em que os ministros Luiz Marinho, do Trabalho e Nelson Machado, da Previdência, votar em plenário isto, aumentar por acordo conjunto, sem passar por votação, ter que ser suspenso pelo Supremo Tribunal Federal ou mesmo ter que a população e a imprensa reclamar e criticar algo assim. Não devia estar se discutindo em hipótese alguma essa palhaçada.

Num país que o salário mínimo é essa merreca e que a média salarial do brasileiro é de meros mil reais, como que um parlamentar se acha no sacro direito de receber 24 vezes mais que o brasileiro médio?

A moda de se discutir aumento é normal em fim de legislatura. Então, quem sai quer acréscimo para receber seu décimo quarto, décimo quinto salário (acredita que existem 15 meses num ano de um parlamentar?) ou mesmo para receber a aposentadoria mais gorda. Já quem chega ou quem fica, quer aproveitar para aumentar um pouco mais sua conta bancária.

E pouco se fala no subsídio que os parlamentares recebem como ajuda de custo para seu mandato. É verba para correio, xerox, passagem de avião, hospedagem, auxílio não sei do quê. Se esse aumento vigorar, a verba total recebida pelos legisladores brasileiros (que, pra piorar, nada legislam) deverá alcançar 100 mil reais mensais. É mole?

E tudo pago pelo dinheiro da população, que paga imposto a qualquer coisa que consuma, fora CPMF, imposto de Renda, IPTU, IPVA, ISS, etc. Imposto é o que não falta para melhorar a renda da classe política que comanda o país e tem que ser bem remunerada para isso, não é? Assim é fácil ficar rico. Não é a toa que muitas pessoas buscam a carreira política e outros não largam o osso de jeito nenhum.

Porque ninguém mais fica indignado? E, se fica, pouco faz além de reclamar no balcão do bar, no portão do condomínio ou de reclamar ao ver notícia a respeito na televisão? Os parlamentares querem “apenas” igualar o salário ao do Judiciário, que já ganha esse valor exorbitante. Esse o Supremo não barrou né? Interesse. Tudo é movido a interesse. Vamos esperar que, ao menos, esse assalto seja revisto por parlamentares que ainda pensam, o mínimo, no povo, e vão cortar esse salário da vergonha.

Só gostaria que a imprensa e a sociedade civil participasse mais em outras áreas e que fizesse o Judiciário repensar o aumento dado a si mesmo, que as pessoas ajudassem a cortar os salários extras dos deputados e senadores, que pressionássemos para que fossem diminuídos os subsídios para os políticos, para que as férias fosse cortadas novamente e que todos obrigassem para que eles fossem mais vezes ao trabalho, isto é, ao Congresso, participar das decisões e fazer o país crescer. Pois, se todo mundo fala que só com trabalho é que se pode alcançar as coisas, está mais que claro o motivo do Brasil ser a porcaria que é.

terça-feira, dezembro 12, 2006

É importante lembrar...

Em comemoração à morte do ditador Augusto Pinochet, morto no último domingo (10), publico a seguir um artigo escrito há três anos para um trabalho acadêmico no curso de Jornalismo. É uma lembrança do que ocorreu naquela época, para que as pessoas não se esqueçam quem foi Pinochet e seus asseclas, incluindo todos que apoiaram o golpe (inclusive os Estados Unidos).

"Coincidentemente", hoje o Chile é a "menina dos olhos" dos liberais, já que, após o golpe e com o assassinato de milhares de pessoas, foi possível implantar, de forma laboratorial, todo o programa neoliberal, que depois foi imposto na década seguinte em toda a América Latina, como uma forma de deixar esses países atrasados por mais um longo tempo. Não é a toa que muitos povos lutam contra presidentes que ainda tentam implantar esse programa pró-elite. É importante que nós nunca esqueçamos quem são nossos inimigos.

Chile, Socialismo e Ditadura

Trinta anos do golpe militar no Chile relembram as atrocidades cometidas pela direita e os erros de direcionamento da esquerda chilena

No último dia 11 de setembro fez 30 anos do golpe militar mais sangrento de toda a América Latina. Numa manhã de terça-feira de 1973 em Santiago, capital chilena, militares liderados pelo General Augusto Pinochet tomaram de assalto o palácio presidencial La Moneda, assassinando o então presidente Salvador Allende.

Allende – com sua base aliada formada pela Unidade Popular de esquerda – foi o primeiro presidente marxista eleito dentro dos marcos institucionais burgueses, já em sua quarta tentativa de eleger-se. A votação ocorreu em 04 de setembro de 1970, sendo eleito pela maioria simples de 36% dos votos. Nas eleições anteriores, o ex-senador perdera por poucos votos e muitas pressões da burguesia chilena, bem como da CIA estadunidense.

Desde o início o presidente chileno demonstrou seus assustadores objetivos, de acordo com a visão burguesa, claro: nacionalização da exploração mineira, principalmente do cobre, produto principal do mercado chileno à época. Além disso a expropriação de setores bancários e manufatureiros de fez presente de forma muito consistente, assim como a ampla reforma agrária, realizada logo no início do governo.

O problema de tudo isto está justamente na ingenuidade de crer que, seguindo as vias democráticas, a burguesia e a direita chilenas iriam ficar caladas diante de perdas gigantescas sofridas para a esquerda proletária. A luta de classes detectada por Marx a mais de 150 anos se acentuou no Chile àquela época. E assim ocorreram os boicotes no abastecimento e as greves dos caminhoneiros, principal meio de transporte no Chile, por conta de suas dimensões geográficas. Nesse momento, já havia intervenção externa dos Estados Unidos, inicialmente com o envio de verbas para financiar a greve em questão.

Allende, com sua tática da legalidade adotada para implantar o socialismo no país era visto com muito pesar pelo imperialismo estadunidense. O Projeto Condor da CIA tratava de minar qualquer tipo de resistência às ditaduras impostas na América Latina durante aquele período, e a “ameaça” chilena era vista pela Casa Branca como uma “nova Cuba”.

Mesmo assim, nas eleições legislativas realizadas no primeiro semestre de 1973, a Unidade Popular teve sua base aumentada, principalmente por parte dos setores populares do campo e da cidade, fato que desencadeou sua própria ruína. Isso porque a partir dali, a direita burguesa desistira definitivamente das vias institucionais para derrubar o governo marxista e tentaria a partir daquele momento a última e mais vil opção: o golpe.

Apesar do apoio popular e dos militares de baixa patente, Salvador Allende estava cada vez mais isolado. Sem apoio do Congresso, da Justiça e recebendo duras investidas dos oficiais do alto escalão, o presidente não conseguia mais saída para permanecer no comando do Chile: o golpe era inevitável. O valor do cobre despencava no mercado externo, devido a estimulantes pressões do governo Nixon. Jogavam-se também bombas em oleodutos e redes de água e eletricidade, com o objetivo de levar o país ao caos.

A partir disso a investida foi arquitetada pelos militares chilenos, com grande participação brasileira, representada na figura de Antônio Cândido da Câmara Canto, embaixador brasileiro no Chile, conhecido inclusive como “o 5º membro da Junta Militar chilena”, após ter sido deflagrado o golpe. Essa ativa contribuição do governo ditador do Brasil se deu não só com na idealização do levante, mas também através de dinheiro, remédios, comida, além de treinamento de tortura na Bolívia e presença in loco de oficiais em Santiago para averiguar e até mesmo torturar presos políticos.

Na primeira tentativa, em 29 de junho de 1973, o general constitucionalista Carlos Prats defendeu Allende, derrubando os golpistas, mas sendo obrigado a renunciar o cargo de Chefe do Exército, devido a pressões internas dos próprios militares. Em seu lugar foi levado ao posto um general que, até aquele momento, não tinha posição de destaque nas Forças Armadas, nem parecia estar do lado dos idealizadores do golpe, e por isso foi erguido ao cargo. Tratava-se do general Augusto Pinochet, que duas semanas depois comandaria a implantação da ditadura militar e a morte do presidente Salvador Allende.

Na manhã de 11 de setembro de 1973 as rádios e televisões foram tomadas. Tanques e aviões aplastaram terror nas ruas de Santiago, enquando Allende emitia seu último e emocionado pronunciamento como presidente do Chile: “Não renunciarei. Pagarei com a minha vida a lealdade do povo. O povo deve estar alerta e vigilante, deve defender os direitos de construir com seus esforços uma vida digna e melhor”. Em seguida o palácio La Moneda foi atacado e Allende morto. Estava decretada assim o início de uma das ditaduras mais atrozes de toda a história da América Latina.

Com aporte financeiro internacional, Pinochet permaneceu à frente do governo chileno durante dezessete anos, com um saldo invejável de sucesso terrorista: mais de 3 mil mortos e outros tantos desaparecidos. Ali instalou-se a primeira experiência neoliberal da história, uma espécie de laboratório para o que viria a seguir na Europa, Oceania e América Latina, consolidando o sistema econômico neoliberal pelo mundo.

Para isso, o general ditador também tomou medidas agressivas, ao abrir o mercado externo, devolvendo as empresas às grandes multinacionais e pagando-lhes polpudas compensações, devido as expropriações realizadas pela “ameaça vermelha”. Outra ação bastante eficaz do ponto de vista burguês foi a opressão e demonste das insitutições sindicais, em que a base do operariado, grande parte dele comunista, se mantinha.

O que fica de conclusão a todo o processo democrático que o Chile passou durante quarenta anos sem intervenção militar e com uma tentativa sabotada de implementação do socialismo está no desejo quase inocente de utilizar-se das instituições burguesas capitalistas para modificar o sistema político e por conseguinte, alterar o status quo vigente.

Crer nessas vias institucionais já indica a própria derrota, como ocorreu com a Unidade Popular. “O golpe significa que o capitalismo na democracia liberal não permite uma opção em relação aos sistemas sociais”, atesta Emir Sader. Somente a ruptura pode derrubar essa falsa democracia em que ao menor sinal de mudança o imperialismo ressurge como o paladino da liberdade para massacrar pessoas e restringir os direitos dos cidadãos.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Até que ponto podemos chegar?

Este post abaixo está no Blog da Soninha

http://blogdasoninha.folha.blog.uol.com.br/

E a Folha de S. Paulo que me desculpe, mas abaixo do post eu vou pôr a tal reportagem que a Soninha comenta, porque é algo estarrecedor mesmo.

Não pode ser pior

Agora não é brincadeira (o post de baixo é, e os títulos são parecidos).

O caso da mãe que foi acusada injustamente de matar a filha com cocaína é uma das coisas mais absurdas, inaceitáveis, imperdoáveis, estarrecedoras dos últimos tempos. Mesmo sabendo que, lamentavelmente, não deve ser um "fato isolado". Quem não conhece alguma barbaridade praticada em hospitais, pronto-socorros e presídios?A sucessão de abusos deveria levar a sociedade toda à mais profunda indignação. A pressões, manifestações, editoriais, faixas de protesto, luto generalizado. Quem se indignou com a quebra de sigilo do caseiro -- indefensável, claro! -- e escreveu laudas e mais laudas sobre o assunto tem a obrigação moral e cívica de manifestar seu repúdio agora também. De não deixar o assunto morrer. A quebra ilegal de sigilo derrubou um ministro; o caseiro foi homenageado na OAB. Pois os responsáveis pelas barbaridades cometidas contra a menina precisariam ser todos condenados pela Justiça; a mãe da menina que morreu, além de receber uma indenização (que jamais vai reparar os danos sofridos), tem de ser objeto de desagravo, de um pedido de perdão, de apoio e reparação até o fim da vida. (Para quem não conhece a história: a notícia da Folha, que esteve o dia todo destacada na capa do UOL, é esta: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0612200617.htm. Só lendo para crer. A que ponto chega a insanidade? E a impunidade?).



Laudo inocenta mãe acusada de matar filha

Daniele foi acusada de colocar cocaína na mamadeira; ela foi libertada e diz que agora quer saber do que a filha morreu

O laudo definitivo do material colhido na boca e na mamadeira da criança divulgado anteontem negou o uso da droga

LAURA CAPRIGLIONEENVIADA ESPECIAL A TAUBATÉ (SP)

Foi colocada em liberdade ontem, depois de 37 dias de prisão, a jovem Daniele Toledo do Prado, 21, acusada injustamente de envenenar a própria filha, Victória Maria do Prado Iori Camargo, de apenas um ano e três meses, com cocaína colocada na mamadeira da menina.Laudo definitivo do Instituto de Criminalística provou que não era cocaína o pó branco encontrado na mamadeira. Também deu negativo para cocaína o exame feito no pó branco encontrado na boca da criança e recolhido no hospital.Caiu assim a única evidência que incriminava Daniele, um laudo provisório que a levou à prisão logo que constatada a morte clínica da menina, às 10h40 de 29 de outubro. O alvará de soltura foi concedido pelo juiz da Vara do Júri e da Infância e Juventude de Taubaté, Marco Antonio Montemor."Eu nem tinha ainda conseguido entender o que significava aquele pííííííííí do oxímetro [que indicava a ausência de pulso], a correria dos médicos para ressuscitá-la, o corpinho inerte da Victória ainda com o tubo saindo da boca, quando a doutora Érika me arrastou pelo braço para a sala onde estava minha filha, gritando: "Olha o que você fez, sua assassina. Encara o que você fez, monstro"."Dali, sem tempo para chorar a perda da filha, Daniele foi levada para a cadeia pública de Pindamonhangaba. "Joga o bicho da mamadeira para cá." Essa foi a senha para o início da surra que deixou Daniele com a mandíbula quebrada, hematomas no corpo e lesões na cabeça, por causa das pancadas contra as grades da cela. Nada menos do que 18 presas participaram da ação contra a jovem."Uma presa enfiou uma caneta no meu ouvido e já ia dar um soco para que entrasse até o talo, quando outra lhe pediu que não fizesse isso. Então, ela quebrou a caneta e metade ficou dentro", lembra Daniele. Apesar dos gritos, o socorro só chegou duas horas depois, ao amanhecer, quando a jovem foi levada inconsciente para o pronto-socorro.Doença estranhaDaniele e sua filha eram bem conhecidas no Hospital Universitário de Taubaté. A menininha tinha uma doença até hoje não diagnosticada, que a deixava inconsciente por várias horas. A criança tomava de quatro a cinco remédios diariamente, inclusive um para evitar convulsões, composto por pó branco. Por causa do agravamento de seu quadro clínico, os últimos quatro meses de vida de Victória foram um entra-e-sai do hospital, com várias internações na UTI.No dia 8 de outubro, a filha internada, Daniele foi estuprada dentro do hospital. Bastante machucada e em estado de choque, foi atendida lá mesmo. Segundo o delegado-seccional de Taubaté (130 km de SP), Roberto Martins de Barros, um laudo confirma a violência sexual. Na delegacia, Daniele acusou, como autor do crime, um quintanista de medicina, do corpo de residentes do hospital."Ele me ameaçava e dizia, enquanto me estuprava, que sabia que eu precisava do hospital para cuidar da minha filha", lembra Daniele.Depois da denúncia contra o residente, a moça teve de ir à delegacia outra vez, antes da morte da filha. Dia 19 de outubro, médicos do hospital denunciaram ter encontrado um pó branco suspeito no pescoço de Victória. Sem autorização da mãe, foram recolhidas amostras de sangue e de urina da criança. Suspeita: cocaína. O resultado deu negativo.A última alta de Victória foi no dia 25 de outubro. Mas a menina podia voltar a ter uma de suas crises a qualquer momento. Foi entregue a Daniele uma carta de encaminhamento assinada por duas médicas. Se o quadro clínico da menina piorasse, ela tinha autorização para ir diretamente ao Hospital Universitário.No dia 28, a criança teve nova crise e a mãe, como combinado, levou-a ao hospital. Não quiseram recebê-la. A mãe deveria levá-la primeiro ao Pronto-Socorro Municipal, onde chegou às 20h30.A mãe denuncia que, mesmo inconsciente, a criança ficou sem atendimento até as 4h25, quando recebeu glicose em soro. Nesse momento, foi coletada a substância branca da língua da criança (a mesma que o exame preliminar do Instituto de Criminalística afirmava ser cocaína). Às 10h40, Victória morreu.Assim que foi libertada, ontem, a mãe de Victória abraçou os familiares que a esperavam do lado de fora da Penitenciária de Tremembé (a 138 km de SP). Chorou e, depois, conforme havia pedido à advogada Gladiwa de Almeida Ribeiro, foi para o cemitério visitar o túmulo da menina.Ela pretende entrar na Justiça para saber se a filha morreu por omissão de socorro ou por morte natural. Também quer punir o estuprador que a vitimou. "Eu tenho o direito de saber exatamente do que a minha Victória morreu."