Jornalismo e Política

quarta-feira, julho 30, 2008

Pra onde vamos?

Duas crianças morreram à espera de fígados desviados para esquema no Rio, diz PF

LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio

O suposto esquema de venda de lugares na fila de transplantes de fígado no Rio, desarticulado na manhã desta quarta-feira na operação Fura Fila, ocasionou a morte de duas crianças que esperavam para receber órgãos, segundo as investigações da PF (Polícia Federal).

As crianças aguardavam por transplantes de fígado que foram desviados para o esquema. O caso foi citado em relatório do Ministério Público Federal entregue à Justiça com a denúncia dos médicos acusados de integrar o esquema, de acordo com a PF.

O ex-chefe de transplantes hepáticos do hospital da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e ex-coordenador do Rio Transplantes, do governo estadual do Rio, Joaquim Ribeiro Filho, é apontado como o chefe do grupo. Ele foi preso em casa, em Laranjeiras (zona sul do Rio). A Folha Online ainda não localizou os advogados dos denunciados.

A PF afirma que Ribeiro Filho desviava fígados que iriam a pacientes no topo da lista de doações e destinava os órgãos a pessoas que pagavam taxas que variavam entre R$ 200 mil e R$ 250 mil.

Nesta tarde desta quarta, a clínica São Vicente, na Gávea (zona sul), onde, segundo a polícia, eram feitos os transplantes irregulares, divulgou nota na qual nega qualquer envolvimento com o caso. O superintendente da PF no Rio, Valdinho Caetano, confirmou que as investigações não encontraram qualquer irregularidade por parte da clínica, que é a única unidade de saúde particular credenciada ao sistema nacional de transplantes.

"A clínica São Vicente apenas participa do processo oferecendo suas instalações hospitalares sempre que solicitada pelas equipes médicas credenciadas ao sistema nacional de transplantes. O doutor Joaquim Ribeiro nunca chefiou equipe de médicos da clínica", diz a nota.

domingo, julho 27, 2008

Realismo ou oportunismo?

O que é possível depreender das duas notícias postadas abaixo, referentes à negociação da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, na Suiça, é que o Brasil, cada vez mais, rege suas relações internacionais pelo realismo das negociações, não se importando tanto com as alianças de ontem, focando, sempre, nos benefícios que vai conseguir com cada acordo.

A proposta da OMC de reduzir os subsídios agrícolas dos países desenvolvidos (Estados Unidos e grande parte da União Européia), em troca de uma redução das taxas dos produtos industrializados desses países na exportação às nações em desenvolvimento, alegrou o Brasil, mas apenas o Brasil, do G-20 que o país mesmo criou, para contrapor às vontades dos países ricos.

O G-20 é composto por nações como Índia, África do Sul, Argentina, ou seja, emergentes que almejam uma paridade maior nas negociações para que posssam crescer como seus irmãos do Norte. E esse grupo foi criado para conseguir mais vantagens nas negociações da Rodada de Doha, que há sete anos segue entravada, afinal de contas, se os pobres não queerem abrir para os produtos industrializados dos países ricos, estes não querem fragilizar sua agricultura em nome de um desenvolvimento igualitário.

No entanto, o Brasil gostou da roposta de Pascal Lamy, presidente da OMC, que propõe um meio-termo nas negociações. O mais interessante é que a União Européia não achou nada bom, pois considerou que era concessão demais para pouco retorno. Enfim, ninguém é a favor da abertura de seus pontos fortes do comércio para a entrada de países oponentes, que, senão são vistos como inimigos nas relações internacionais, no campo do comércio são vistos como guerreiros ferrenhos.

E o Brasil, no meio dessa história, conseguiu desagradar a União Européia e, principalmente e mais importante, seus aliados do G-20, que o próprio país ajudou a construir, para barganhar mais vantagens para as nações do Sul. No entanto, esse tipo de atitude, realista e interessante no curto prazo, de aceitar um consenso (tão típica do sindicalista Lula ao longo dos anos de batalha na fábrica e, também, na transformação do PT rumo ao capitalismo), acaba por minar uma aliança Sul-Sul, e se mostra oportunista, por considerar um avanço temporário nas negociações com grandes potências como grande coisa para o povo brasileiro e dos demais "aliados".

Talvez o medo de um embate mais feroz no futuro tenha contribuído para esse aceite. É aquela mentalidade de operário do ABC dos anos 80 "melhor isso do que nada" que reina nas relações internacionais do governo Lula. O engraçado que isso é colocado como uma grande posição brasileira. O problema é que o Brasil só é visto como grande potência por ele mesmo. Nem os países ricos, muito menos os mais pobres, vêem e querem observar o Brasil como um gigante.

Até por isso, esse apoio à proposta da OMC parece ser uma grande furada no longo prazo das relações internacionais do governo Lula. Pode ser uma vitória temporária aprovar esse acordo que a própria UE não quer (só pra perceber como a negociação é dúbia). Entretanto, pode ser o sinal de uma grave derrota nos próximos anos, de um país isolado em seus realismos/oportunismos.

UE promete contraproposta para Rodada Doha

MÁRCIA BIZZOTO, da BBC Brasil, em Genebra (Suíça), de 26/07/2008

O comissário europeu de Comércio, Peter Mandelson, teve que ceder ante os ministros de Agricultura dos 27 países membros da União Européia, que criticaram neste sábado as novas propostas da Rodada Doha, consideradas por eles "desequilibradas" entre os capítulos agrícola e industrial.

Mandelson anunciou que apresentará neste domingo uma contraproposta ao texto distribuído na sexta-feira pelo diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), Pascal Lamy, com o objetivo de "desbloquear" as negociações sem desvirtuar o objetivo inicial da ronda, de promover o desenvolvimento global. A intenção é conseguir maiores concessões dos países emergentes em relação ao acesso a seus mercados para bens industriais.

Segundo a secretária de Estado francesa para Comércio Exterior, Anne-Marie Idrac, cujo país detém a presidência de turno da UE, o texto de Lamy, já aceito pelo Brasil, foi recusado pela maioria dos governos do bloco, especialmente por França, Irlanda e Itália, que teriam que reduzir em 70% as tarifas de importação mais elevadas sobre produtos agrícolas e em 80% os subsídios internos.

Apesar de Mandelson ter recebido um mandato para negociar em nome do bloco, qualquer acordo assinado por ele terá que ser posteriormente ratificado pelos governos nacionais.
Novas reuniões

Decididos a deixar Genebra com um acordo debaixo do braço, os membros da OMC concordaram em estender as reuniões, inicialmente programadas para terminarem neste sábado, até a próxima quarta-feira (30).

Ainda falta decidir questões importantes, como a lista de produtos tropicais que teriam corte mais rápido nas tarifas, o possível fim do sistema de preferências para a banana dos países do bloco África, Caribe e Pacífico, e a ampliação do sistema de indicação geográfica, todos considerados importantes para os europeus.

Neste sábado, os negociadores avaliam suas propostas em relação à proposta que está sobre a mesa e discutem o capítulo de serviços da rodada.

Apesar de afirmar que o acordo "ainda está longe de ser concluído", o comissário europeu assegura que os membros da OMC nunca estiveram tão perto disso "durante os últimos sete anos".

Brasil nega racha com aliados, mas defende acordo sobre Doha

Da Folha Online, de 26/07/2008

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, negaram neste sábado que a posição favorável do Brasil em relação à proposta feita ontem pelo diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), Pascal Lamy, para avançar nas negociações da Rodada Doha tenha criado um mal-estar seja com o G20 seja com a Argentina.

Lula negou hoje em Lisboa que tenha ocorrido um racha no G20 (grupo de países emergentes liderados por Brasil e Índia). "O G20 não sairá rachado porque isso não faz parte da estratégia que montamos. Mas temos de respeitar as diferenças que existem entre os países (...) O Brasil não quebrou nenhuma solidariedade. Nós participamos do G20, queremos que um acordo seja do interesse do G20, mas há de se convir que dentro do grupo temos assimetrias, temos disparidades enormes entre os países", disse Lula. "Os interesses dos países não são os mesmos, embora tenhamos de encontrar um denominador comum."

Entenda o que é a Rodada Doha

Já Amorim, negou que a aceitação da proposta pelo Brasil tenha criado um racha com a Argentina. "Eu tive hoje uma reunião com o ministro [argentino das Relações Exteriores, Jorge] Taiana e não me pareceu que houvesse mal-estar", disse Amorim. "Embora sejamos sócios, irmãos, amigos, aliados, cada um tem sua cabeça, cada um joga com sua cabeça."

Ontem Lamy apresentou uma proposta para tentar fazer os EUA reduzirem o teto de seus subsídios ao setor agrícola para cerca de US$ 14,5 bilhões --abaixo dos US$ 15 bilhões propostos pela representante comercial americana, Susan Schwab. O Brasil, no entanto, esperava um teto de US$ 13 bilhões. A UE (União Européia), por sua vez, teria de reduzir o teto de seus subsídios ao setor agrícola em 80%, para 24 bilhões de euros (cerca de US$ 37,7 bilhões).

"Claro que eu sei muito bem que [os argentinos] não estão satisfeitos com a proposta", afirmou. "As únicas opções a meu ver eram não ter nenhuma rodada ou ter uma rodada com equilíbrio que, sem ser o ideal, nos pareceu razoável", explicou Amorim. "Mas esta é uma questão de juízo de cada país. Eu não acho que o acordo seja o balanço ideal, nem justo talvez, mas nossa tarefa aqui não é tornar o mundo justo, é torná-lo um pouco menos injusto."

O comissário europeu do Comércio, Peter Mandelson, afirmou hoje que a Argentina tem muito a ganhar no setor agrícola dentro da Rodada Doha de liberalização comercial e nada a temer no setor industrial em caso de acordo na OMC (Organização Mundial do Comércio). "As exportações argentinas para a Europa serão muito ampliadas e a Argentina não tem nada a temer no que se refere ao acesso a seus mercados industriais", afirmou.

Segundo ele, as delegações latino-americanas mostram uma atividade amplamente positiva e são favoráveis a discutir sobre a base do pacote apresentado por Lamy. Fontes da delegação argentina indicaram que Buenos Aires conseguiu elevar de 10 para 22 o coeficiente de importações de manufaturados (quanto mais elevado o coeficiente, menores são os cortes das tarifas aduaneiras).

Propostas
Lamy ainda propôs que cada país possa deixar de fora da liberalização 12% de seus produtos a exportação. Além disso, 5% podem ficar sem nenhum corte nos direitos aduaneiros. Nos textos em discussão até agora se contempla a possibilidade de os países em desenvolvimento definirem até 14% de 'produtos especiais', segundo o coeficiente escolhido.

A cláusula contra a concentração, pedida pela Europa para impedir que os países emergentes
excluam totalmente da liberalização setores inteiros de sua indústria, poderá ser aplicada a 20% dos produtos a exportação ou 9% de seu volume de comércio.

O Mecanismo Especial de Salvaguarda, que permite a um país elevar as tarifas para se proteger de uma enxurrada de importações, poderá ser aplicado quando o volume de importações de um produto aumentar 140%. Os países em desenvolvimento poderão incluir até 4% de seus produtos a exportação na lista de produtos sensíveis, evitando corte muito alto dos direitos aduaneiros nestes itens.

Os países em desenvolvimento deverão cortar suas tarifas aduaneiras em um coeficiente que vai de 20 a 25 (quanto mais baixo o coeficiente, maior a redução).

"Melhorar o acordo"

A secretária de Estado da França do Comércio, Anne-Marie Idrac, indicou hoje que o comissário de Comércio da UE, Peter Mandelson, precisa "melhorar o acordo" das negociações após as novas propostas apresentadas por Lamy.

"O conselho [de ministros da UE] encorajou a comissão a dar continuidade a seus esforços para, com base nas negociações em andamento, melhorar o compromisso de acordo com o mandato do conselho", declarou, após reunião de ministros europeus do Comércio em Genebra, da qual Mandelson participou.

Idrac também falou das divisões dos Estados membros sobre as novas propostas que estão sobre a mesa da Rodada Doha.

Casa Branca
Ontem, o porta-voz da Casa Branca Tony Fratto disse que os "grandes países emergentes" precisam contribuir para um acordo na Rodada Doha. Segundo ele, os Estados Unidos, representados pela titular do Comércio, Susan Schwab, "desempenham um papel motor para fazer avançar as negociações".

Ele destacou que apesar dos avanços "problemas importantes permanecem sem solução, e nos preocupamos com a ausência de algumas grandes economias emergentes" no acordo. "É indispensável que as grandes economias emergentes contribuam para o sucesso das discussões", acrescentou o porta-voz, sem citar nomes.

Fratto destacou os "sólidos progressos" obtidos no quinto dia de discussões entre Norte e Sul sobre agricultura e produtos industriais. Isso "alentou os negociadores" a concluir as negociações.

sábado, julho 26, 2008

Teorização a serviços ideológicos

Há espaço para o conceito de neopopulismo no século XXI?

por Rodrigo Herrero

O avanço de lideranças esquerdistas (ou atribuídas como tal) na América Latina nos últimos anos contribuiu para o surgimento de uma definição teórica, muito apregoada e aceita nos meios de comunicação brasileiros e defendida pelos defensores da cartilha neoliberal, de que esses governos não seriam necessariamente de esquerda ou, se fossem, teriam um caráter predominantemente populista. Mas, sem as condições de aliança de classe como no passado, muito menos a situação favorável de industrialização do período áureo do populismo, entre 1940 e 1960.

O momento atual seria de aproveitar as massas marginalizadas, conceber políticas assistencialistas para beneficiá-las e, com os elementos personalistas e carismáticos de antigamente, estaria pronta a receita do neopopulismo. Se a esquerda identificou o neoliberalismo para designar as políticas de abertura de mercado e controle deste sobre a economia, sem a mão pesada do Estado dirigindo os rumos, a direita tratou logo de cunhar o neopopulismo, sem o mesmo cuidado teórico, para designar qualquer coisa que não seja o capitalismo em bases liberais radicais.

E podemos ver claramente a conceituação do que seria o neopopulismo no artigo do historiador Boris Fausto: “O neopopulismo emerge em outra época, no âmbito da globalização, que se tornou nítida a partir dos anos 1980. Em linhas gerais, o Estado mudou de configuração, sem deixar de ter relevância (...) e a base de apoio ao populismo mudou. A burguesia internacionalizada ou desfeita abandonou o barco populista e a fonte de apoio popular se alterou. O neopopulismo não se assenta sobre a classe trabalhadora organizada, hoje sem a importância de outros tempos, mas, sobretudo, em massas marginalizadas, predominantemente urbanas[1]”.

Isso é até considerado compreensível, devido ao fato de que, com o “fim da história” cunhado por Francis Fukuyama, o único modelo que deveria prevalecer na sociedade mundial era o capitalismo vestido dessa roupagem neoliberal. E, qualquer coisa oposta a disso, de acordo com o discurso único adotado, deveria ser caracterizado como atrasado, negativo, ruim para o mundo. E, nada melhor do que chamar qualquer alternativa à esquerda – considerada morta após a queda da União Soviética e do muro de Berlim na Alemanha – de populista, ou neopopulista, pois são conceitos visto de olhos tortos por boa parte da opinião pública e pela academia.

Ou seja, uma forma de demonizar os políticos que privilegiam políticas públicas em prol das massas mais carentes e que capitalizam os lucros dessas medidas, como todo governo costuma fazer, na verdade. Mas não, se tem uma “queda” esquerdista, é neopopulista, não é um governo democrático, de respeito às instituições (ou seria à burguesia?), etc. Falando de outros países que não possuem essa suposta inclinação populista, como no caso do Chile (o queridinho da intelectualidade) e sua Concertación[2] e a opção – que acabou vencendo – de Felipe Calderón no México[3], Boris Fausto indica essa posição: “Não se trata aqui de endossar simplesmente as figuras antipopulistas, mas todas elas, com seus méritos e defeitos, têm compromisso com a democracia”.

O discurso único impõe a necessidade de considerar perfeita apenas a alternativa neoliberal, como a panacéia para todos os problemas, o que, na prática, principalmente com o fiasco Consenso de Washington[4] adotado na América Latina na década passada, percebemos que tudo não passa de ideologia, ao contrário do que é defendido por esse modelo.

Populismo à moda antiga
O populismo marcou presença forte na história da América Latina durante as décadas de 30 a 60 do século passado e é caracterizado por Torcuato S. Di Tella, desta forma: “O populismo, por conseguinte, é um movimento político, com forte apoio popular, com a participação de setores de classes não operárias com importante influência no partido e que sustenta uma ideologia anti-status quo. Suas fontes de força são: I) elite localizada nos níveis médios ou altos da estratificação e dotada de motivações anti-status quo; II) massa mobilizada formada em resultado da ‘revolução de aspirações’; e III) uma ideologia ou estado emocional difundido que favoreça a comunicação entre líderes e seguidores e crie um entusiasmo coletivo[5]”.

As principais lideranças desse período são: Juan Domingo Perón[6], Lázaro Cardenas[7] e Getúlio Vargas[8]. Eles arrastavam multidões, levando todos para o alcance de seus objetivos, voltados, principalmente, para os menos favorecidos. Tal relação entre o povo e o “Salvador da Pátria”, que resolveria todos os problemas da nação, era quase messiânica, tanto que Perón até hoje tem status de deus na Argentina[9] e Vargas ficou para a história conhecido como o “pai dos pobres”.

Essa aliança política entre a liderança carismática e as massas tornou-se possível de ser sustentada com avanços econômicos, por conta da reunião de três atores importantes: o Estado, que iria prover todas as condições para o crescimento e o desenvolvimento nacional, investindo na indústria; a burguesia industrial, que seria a beneficiada com esse foco, alimentando cada vez mais o crescimento, aumentando o número de contratação de pessoal; e a classe trabalhadora, que abriria mão de algumas reivindicações mais profundas para obter mais emprego e melhores salários para suas categorias.

Os movimentos populistas, considerados por alguns como desvios do rumo ao socialismo e, por outros, como fato importante para o desenvolvimento industrial desses países subdesenvolvidos, que tinham como base econômica somente o modelo agro-exportador, são vistos por Gino Germani[10] como “fenômenos sócio-culturais e políticos fundamentais e característicos da época de transição da sociedade tradicional à sociedade urbano-industrial”. Octavio Ianni complementa dizendo que essa realidade complexa está mudando, mas ainda no meio de um processo de transição: “Pouco a pouco, reduz-se o peso do tradicional e cresce a importância do moderno. No limite estaria a sociedade urbano-industrial, democrática, racional, onde não haveria nem demagogos nem carismáticos. No curso da transição, entretanto, surgem os movimentos populistas, ou nacional-populares, compostos principalmente de amplas massas de escassa ou nenhuma experiência no mundo urbano”.

Neopopulismo existe?
A exposição acima demonstra que o populismo é datado de uma época específica de nossa história, com peculiaridades próprias de um tempo em que os países eram plenamente subdesenvolvidos e a alternativa que foi concebida naquele período era a de um desenvolvimento industrial pautado pelo controle do Estado sob a égide de uma liderança personalista. Portanto, por mais que se queira modificar o conteúdo para mantê-lo dentro de uma forma inapropriada, não dá para dizer que vivemos numa era neopopulista na América Latina. Esse termo é totalmente descabido de nexo teórico, cheira mais a discurso ideológico de grupos que se sentem ameaçados com o avanço de setores progressistas, esquerdistas, que trazem propostas de melhorias para a população carente desses países.

É uma grande tentação para os intelectuais de direita ou neoliberais ou qualquer outra coisa, afirmar que governos que atuam visando o bem-estar do povo são neopopulistas, nacionalistas, só porque eles se preocupam com as massas e fazem políticas voltadas às elas. “Para certas correntes ditas de esquerda, o neopopulismo (cuja expressão máxima é o regime de Hugo Chávez, na Venezuela) representa um novo caminho para o socialismo, uma ‘onda vermelha’ que se espalha pela América Latina, como se Deus escrevesse certo por linhas tortas”, escreve Boris Fausto.

A frase acima quer colocar na boca da esquerda o medo que a elite (incluindo a intelectual) possui de um avanço de governos esquerdistas como o de Chávez e a influência que isso pode ter na região. Aí, prefere-se, pelo discurso ideológico, apontar que esses governos são populistas a entendê-los como alternativas de governança ao projeto neoliberal. Mas isso é que eles não querem fazer mesmo, pois confiam cegamente no capitalismo como única opção, apesar de todas as mazelas vistas na América Latina com a aplicação desse modelo nos últimos vinte e poucos anos.

O escritor cubano, Carlos Alberto Montaner, vai mais longe em seu artigo e reforça ainda mais a tese colocada nesse texto: “Neopopulismo é o modo elegante como a região chama a esquerda terceiro-mundista. O que é isso? É uma tendência ideológica e um modo de governar que amalgamam todos os erros e vícios políticos alegre e inutilmente praticado pelos latino-americanos ao longo do século 20: caudilhismo, clientelismo, estatismo, coletivismo e antiamericanismo, aos quais, em certos países com forte presença indígena, agrega-se hoje o rancoroso componente indigenista[11]”.

Como se vê, é fácil colocar tudo dentro de um mesmo saco e atribuir-lhe um valor igual a questões diferentes. No entanto, cada país deve ser analisado separadamente. Não dá para dizer que Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Lula no Brasil, Tabaré Vasquez no Uruguai, e López Obrador e Ollanta Humalla, caso fossem eleitos, respectivamente, no México e no Peru, são todos neopopulistas, esquerdistas, anti-democráticos, que se aproveitam dos pobres para ganharem vantagem nas próximas eleições e fortalecer seu poder de forma hegemônica no Estado. É preciso diferenciar o discurso sério daquele único, que julga tudo como uma coisa só e imprestável.

Também não dá para afirmar que esses governos são revolucionários, que propõem um caminho para o socialismo. No caso brasileiro, por exemplo, é perceptível o rumo do governo Lula que não tem nada de esquerdista, populista, pois atende, cada vez mais, aos interesses da burguesia, apesar de dar migalhas às parcelas marginalizadas da sociedade. Seu pacto não é apenas com os desfavorecidos, pois ele depende da base burguesa nacional e internacional para se manter na presidência, o que inviabiliza, de cara, o tal conceito neopopulista, já que sua sustentação ocorre com o compromisso aos acordos internacionais e com o lucro dos bancos, por exemplo.

A briga na Bolívia, a princípio, tem mais cunho étnico e de classes do que um neopopulismo. Isso porque, Evo tenta governar para a parcela mais excluída da história da Bolívia, que são os índios, mais da metade da população daquele país. E recebem, em contrapartida, a oposição da burguesia industrial de Santa Cruz de La Sierra e região, que deseja maior autonomia para seus departamentos[12]. Chávez, por sua vez, superou a oposição local e tem um forte apoio da população, o que seduz qualquer teórico a classificar como neopopulista. Mas não há apenas massas amorfas recebendo benefícios do governo, isso é subestimar e muito a participação do povo venezuelano no processo histórico que está se desenvolvendo naquele país. Graças a participação popular, os resultados na educação, na saúde, avançam de forma significativa e trazem esperança, na prática, para as classes menos favorecidas que não conseguiam observar progressos antes dos chavistas conquistarem o poder, de forma legítima, diga-se, nas urnas.

Por tudo isso, dizer que um governo é neopopulista por ter um líder que discursa muitas vezes e faz política para os pobres é de um reducionismo e também de uma leviandade sem tamanho. Por isso, acredito que esse termo “neopopulismo” nem deveria existir, muito menos ser aplicado no século XXI, pois sua fundamentação teórica não se sustenta numa análise profunda dos fatos. Essa palavra deve ser jogada na lata de lixo da história, assim como as experiências neoliberais que, essas sim, afundaram a América Latina nos últimos anos e ainda persistem em vigorar em certos países, como o Brasil, atravancando um desenvolvimento elevado. Até por esse exemplo brasileiro, não dá para dizer que as propostas atuais de governos latino-americanos sejam a solução final, pois não são. Contudo, não devem ser confundidas com algo que também não se enquadram, apenas para atender a interesses de classe de quem define de forma a distorcida as coisas.
[1] FAUSTO, Boris. O neopopulismo na América Latina. Folha de S. Paulo, 17 de fevereiro de 2006.
[2] Aliança entre o partido socialista e o partido democrata-cristão, que governa o Chile há 16 anos, desde o fim da ditadura de Pinochet.
[3] Felipe Calderón (Partido da Ação Nacional) venceu as eleições de 1º de julho, superando seu opositor, López Obrador (Partido da Revolução Democrática), este, considerado populista pela maioria da imprensa internacional e brasileira. Até agora, Obrador contesta o resultado final e mobiliza sua militância para uma recontagem dos votos.
[4] Documento criado a partir de uma reunião em 1989 na capital dos Estados Unidos entre acadêmicos e economistas estadunidense, funcionários do governo, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Neste documento rezam as seguintes “recomendações”: disciplina fiscal, reforma tributária, taxas de juros positivas determinadas pelo mercado, câmbio competitivo, desenvolvimento de políticas comerciais liberais, maior abertura ao investimento estrangeiro, privatização, profunda desregulamentação, proteção à propriedade privada.

[5] TELLA, Torcuato S. Di apud IANNI, Octavio. A Formação do Estado Populista na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
[6] Perón presidiu a Argentina entre 1946 a 1955.
[7] Cardenas comandou o México entre 1934 a 1940.
[8] Vargas foi presidente em dois períodos: 1930-1945 e 1951-1954.
[9] Como exemplo, o partido criado por ele não é conhecido na Argentina como Justicialista, mas sim, peronista.
[10] Octavio Ianni usa como referência de Germani o texto Democracia Representativa y Clases Populares em la América Latina, publicado por Alain Touraine y Gino Germani, América del Sur: Um problema Nuevo, Barcelona: Editorial Nova Terra, 1965.
[11] MONTANER, Carlos Alberto. O capitalismo andino-amazônico e suas criaturas. O Estado de S. Paulo, 20 de fevereiro de 2006.
[12] Departamentos podem ser entendidos no Brasil como os Estados.

Observação: Texto feito para a Pós-Graduação de Política e Relações Internacionais da Fundação Escolaa de Sociologia e Política de São Paulo (FESP) em 2006 e publicado no mesmo ano no Rabisco.