Jornalismo e Política

sexta-feira, junho 30, 2006

DICA CULTURAL – 30.06.06

Sempre rir

A primeira dica cultural deste blog é da comédia musical Vixe Maria! Deus e o Diabo na Bahia! que está em cartaz até o dia 6 de agosto no Teatro Fecomércio, próximo à avenida 9 de Julho e à avenida Paulista. A peça é original de Salvador, na Bahia, no qual ficou por lá 2 anos e teve a presença de 125 mil espectadores.

Inspirado no conto de Machado de Assis, A Igreja do Diabo, o texto de Cacilda Povoas, Cláudio Simões e Gil Vicente Tavares (com a direção de Fernando Guerreiro, um dos fundadores da Companhia Baiana de Patifaria) conta a história da tentativa do Diabo (Frank Menezes) – incentivado por sua esposa Naja (Cristiane Mendonça) - de fundar uma igreja para sua adoração em Salvador. Deus (Jackyson Costa) autoriza, mas, sugerido pelo anjo Gabriel (Alan Miranda), decide acompanhar Naja e Diabo de perto para saber como os fatos evoluem.

A partir daí que os acontecimentos se desenvolvem, o Diabo não alcança seu intento, mas leva tudo o que criou para o carnaval embora, tornando a comemoração chata, na visão das pessoas. Com isso, Deus é obrigado a pedir para o Diabo voltar com os apetrechos do carnaval, devolvendo as cores ao festejo baiano.

Vixe Maria! é muito escrachado e mistura esse lado trash com teatro de cordel. As quase duas horas de apresentação são de tirar o mau humor de qualquer um. As situações estapafúrdias que Deus e o Diabo vivem no decorrer das cenas nas são de chorar de rir.

O dilema entre o Bem e o Mal passa ao largo do texto, ficando restrito às piadas e às sacanagens que um impõe ao outro durante a peça. As discussões entre os dois durante o tempo todo e, principalmente, o desempenho do personagem Diabo, trazendo piadas e palavrões ditos de formas sutis, valem a pena. O sotaque carregado dos personagens é um elemento a mais de divertimento, traz um frescor ainda maior no desenvolvimento da peça.

Vale a pena gastar um troco para assistir a um espetáculo desses, vazio de conteúdo crítico – o que nem sempre deve ser mal visto -, mas repleto de piadas e risos, que trazem um pouco da leveza necessária ao dia-a-dia, cada vez mais carrancudo e anacrônico.

Serviço
Vixe Maria! Deus e o Diabo na Bahia
Até 6 de agosto
Teatro Fecomércio
Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – Bela Vista – São Paulo – SP
Próximo às avenidas 9 de Julho e Paulista
As sextas e sábados às 21h30 e aos domingos às 19h
Preço: R$ 40,00 (sexta) e R$ 50,00 (sábado e domingo)
Estacionamento com manobrista: R$ 12,00
Telefone: 11 – 3188-4141

quinta-feira, junho 29, 2006

NOTÍCIAS DO DIA – 29.06.06

Defensor do agronegócio deixa o governo

A principal notícia de ontem e que movimenta os jornais toda a imprensa tradicional hoje é a demissão de Roberto Rodrigues do ministério da Agricultura. Homem forte da bancada ruralista, o latifundiário Rodrigues (isso mesmo, ele tem fazendas em São Paulo, maranhão e Piauí) era o defensor do agronegócio e garantia todas as mordomias para os agricultores brasileiros - leia-se grandes fazendeiros e agricultores. Enquanto isto, a agricultura familiar – que é a que põe comida no prato dos brasileiros – sempre foi tratada com desleixo em sua gestão.

Apesar de tudo isso, as divergências com o ministério da Fazenda, que, segundo os jornais, entravou o desenvolvimento financeiro (leia-se financiamentos para os mega-agricultores), e o período eleitoral (que “obrigaria” o ministro a participar, mesmo que indiretamente, da campanha de Lula), teriam encerrado o ciclo do ministro. Interessante que no dia de ontem, as notícias na Internet davam conta de que ele teria saído para estar perto de sua esposa que enfrentaria um problema grave de doença. Mas hoje as informações, ditas nunca se sabe por quem, atestam que a missão estaria cumprida pelo ex-ministro.

Ele era um dos poucos que ainda permanecia no cargo desde o início do mandato petista. Os demais são Luiz Fernando Furlan (Indústria e Comércio), Márcio Thomaz bastos (Justiça), Gilberto Gil (Cultura), Walfrido Mares Guia (Turismo), Celso Amorim (Relações Internacionais), Jorge Armando Félix (Gabinete de Segurança Institucional), Waldir Pires (Defesa) e Marina Silva (meio Ambiente)

E até pelo fato de Rodrigues ser o queridinho da burguesia latifundiária do país, as críticas partem de todos os lados. “Com certeza ele saiu por estar insatisfeito com o governo que não prioriza a agricultura (leia-se agronegócio)”, disse ontem para a Folha On Line o presidente da bancada ruralista na Câmara (sim, eles não se escondem mais), deputado Dilceu Sperafico (PP-PR). “Foi um pedido nosso para que ele deixasse o cargo. O ministro estava sendo desprestigiado pelo governo e não poderia manchar sua biografia”, afirmou para o mesmo veículo o deputado Ronaldo Caiado (PFL-GO).

Vocês devem ter reparado a falta de uma posição de deputados da base governista, mas a falta de critério jornalístico não é minha e sim do jornalista que não foi atrás do famoso outro lado do jornalismo. Isso é normal, os ataques continuaram desta maneira. O referido veículo entrevistou te o candidato à presidência pelo PSDB, Geraldo Alckmin (mais anti-objetivo impossível, não acham?), que creditou a saída de Rodrigues à falta de apoio de Lula. Depois aparece a líder do governo no Senado, Ideli Salvati (PT-SC) para dizer que não há problema na saída do ministro.

Mas a pancadaria e a defesa aberta do agronegócio (que é um negócio para poucos) prosseguem: “Ele (Rodrigues) é um homem preparado, que entende do agronegócio e se dispõe ao diálogo”, disse o presidente do Conselho Nacional de Pecuária de Corte (CNPC), Sebastião Costa Guedes. Na Agência Brasil, órgão do governo, o líder da minoria no Senado, Álvaro Dias (PSDB-PR) ataca o governo Lula: “Ele (Rodrigues) teve paciência ilimitada, esperou demais. A insensibilidade do governo federal com relação à agricultura queimou uma liderança do setor. A política agrícola, hoje, não é decidida no Ministério da Agricultura, mas no Ministério da Fazenda”.

Ainda na Agência Brasil, há um político com discurso menos radical: “Foi uma substituição fora de hora. Nós (bancada ruralista) achávamos que ele deveria ficar até dezembro fazendo o bom trabalho que tem feito. Mas a saída dele não vai afetar a agricultura”, avaliou o vice-líder do PTB, deputado Nelson Marquezeli (PTB-SP).

Percebe-se que o governo deve perder apoio da bancada ruralista, aumentando seus problemas com relação a esse setor. Se os trabalhadores rurais e os pequenos agricultores já não gostavam do tratamento dado pelo Ministério da Agricultura, agora, somam-se a eles (mas com pensamento oposto) os latifundiários defensores do agronegócio, que querem outro homem de perfil semelhante para manter o trabalho atual, ou seja, mais do mesmo.

Os ataques vão crescer e as pressões para que as benesses aumentam nessa pasta serão ainda mais assustadoras, prejudicando qualquer tipo de mobilização do povo, que, novamente, ficará de lado nessa questão. Pois, obviamente, Lula vai tentar minimizar o problema dos ruralistas, indicando um nome de seu gosto e aplicando a política cada vez mais voltada para esses interesses, se preocupando pouco com os pequenos agricultores, como é praxe nesse governo que se diz até hoje dos trabalhadores.

Quanto a Roberto Rodrigues, já vai tarde. Pena que nada vai mudar com sua saída e que ela não se deu pela péssima performance dele na pasta. Certamente, analiso não pelo lado dos latifundiários que o acham um deus, mas sim pela população que espera há décadas por um pedaço de terra que a reforma agrária desse país nunca saiu do papel.


Verba joga dos cofres públicos

Em dia de demissão de ministro, vale destacar a reportagem de O Estado de S. Paulo na página A4, Caderno Nacional: “Em ano eleitoral, Lula aumenta verba para investimento em 27%”. O texto trata do maior gasto com obras publicas no ano eleitoral e se baseia nos dados divulgados ontem pela ONG Contas Abertas, a partir das informações do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi).

De acordo com a matéria, o governo federal já reservou R$ 5,3 bilhões do orçamento deste ano para investimentos, o que representa 27% a mais, em termos reais, em comparação aos valores direcionados para investimento no primeiro semestre de 2005. na checagem feita pelo jornal com o mesmo período do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (os seis primeiros meses de 2002), o acréscimo é de 29%.

O texto avisa que quem se beneficia, na verdade, com essas verbas são os governadores e prefeitos, que podem deitar campanha em cima das futuras obras, além dos parlamentares responsáveis pela emenda ao orçamento. Isso porque, o repasse efetivo desse dinheiro, segundo a Lei Eleitoral, só será feito às obras que tiverem sido começadas até o próximo dia 30, ou seja, amanhã.

Para isso, as prefeituras precisam preparar as licitações. Acontece que muitas dessas licitações podem ter sido adiantadas, segundo o Estado, prevenindo quanto ao orçamento que foi aprovado apenas no fim de abril. Exemplo disso é o Ministério das Cidades que já vinha analisando projetos e reservou até agora R$ 1,55 bilhão, o maior volume de verba para investir até o momento. Ou seja, a corrida para a liberação de recursos é gigantesca até amanhã, para conseguir aprovar o maior número de obras e, com isso, conseguir votos até as eleições.

Apesar de toda essa tentativa, muitas das obras só terão início no começo de 2007, obviamente, pela data limite de execução dessas obras já ter estourado praticamente. Isso representa um sério problema: os projetos aprovados são claramente de cunho eleitoreiro. Nada de anormal num país que faz dessa prática algo corriqueiro, admitido por muitos políticos. Ainda mais no caso do PT, que aderiu a essa práxis partidária, muito peculiar no Brasil, há muito tempo. Só não vê quem não quer.

O problema fica para as pessoas a quem as obras são destinadas. Elas recebem promessas, notícias de que algo será feito em prol de sua comunidade, manchetes saem em jornais locais e... pára por aí. Logo se aproxima o período eleitoral e as máquinas param, as desculpas quanto às eleições chegam, 2007 chega e nada é concluído. O problema persiste ou a melhoria não é feita e o próximo governante, ou até o mesmo parlamentar, vai ao lugar para dizer que dessa vez a obra será terminada. E assim caminha a política brasileira, feita mais na base de enganações do que de cumprimento de promessas.

Obs.: Por problemas de saúde, excepcionalmente ontem não foi possível atualizar este blog. Desculpem-me pela falha.

terça-feira, junho 27, 2006

NOTÍCIAS DO DIA - 27.06.06

Fiscalização durante campanha deve ser feita

Um dos destaques do dia vai para a matéria que saiu hoje na página A4 do Estado de S. Paulo e tem o título sugestivo para leitura: “Planalto prepara regras para fugir de acusação de uso da máquina”. Ou seja, o presidente Lula pediu à sua equipe jurídica que preparasse uma portaria com regras de conduta para o Palácio do Planalto durante as disputa eleitoral. Segundo o jornal, essa iniciativa seria uma forma de diminuir a imagem do governo de que tem feito muitas viagens para a participação em eventos públicos com um cunho mais voltado à propaganda política, o que tem sido sistematicamente criticado pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Marco Aurélio Mello.

De cara, vale a pena voltar os olhos novamente ao título e ver como o jornal pende para um lado ao colocar a palavra “fugir” ali, diagnosticando realmente que Lula tem feito campanha pelo Brasil. O fato de o governo elaborar uma portaria não precisa ser necessariamente por isso, pode ser para regulamentar algo importante que nunca se pensou antes. Claro que é meio utópico, mas não é função do jornal ajuizar valor referente a qualquer assunto, ainda mais sobre esse.

Desta feita, voltamos nosso olhar para o conteúdo em si noticiado pelo jornal e não pela sua forma. Já faz tempo que algo desse tipo deveria ser implantado, visando coibir abusos em tempos de eleição. Mas, todos sabem que, no frigir dos ovos, quem tem a máquina governamental do seu lado tem maiores chances de ser ouvido, visto, lido, pois mesmo que seja proibido, toda a estrutura voltada (idealmente) ao trabalho em prol do Brasil acaba por ser utilizada pelo governante, seja ele o Lula ou qualquer outro.

O que precisa ficar claro é justamente isto: todo político que tem alguma estrutura financeira, política, de articulação de verbas e apoios (e hoje em dia isso é essencial) tem mais chances de sobressair numa disputa eleitoral. E, qual o lugar – ainda mais agora, depois do escândalo do mensalão, em que todos estão mais contidos em dar e buscar capital para financiamento de campanha – que isso existe com maior facilidade que não um cargo público?

Por isso mesmo, é importante o trabalho de fiscalização feito pelo TSE, fazendo com que o Palácio do Planalto se coce para formular diretrizes explícitas, para que os funcionários à serviço do povo (é assim que deveria ser visto quem governa, não?) realmente trabalhem durante seu tempo de mandato. E, para isso, é vital a participação de todos nesse processo, com cada eleitor procurando saber o que seu eleito tem feito pelo país e como ele está se articulando para as próximas eleições.


Farpas para todos os lados


Outro assunto importante do dia foi a continuidade da troca de farpas entre PT e PSDB, que começou no último sábado, durante o lançamento da candidatura de Lula na Convenção Nacional do PT, quando o atual presidente da República discursou que o seu governo foi melhor que o de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), citando diversos números para comprovar sua tese.

No dia seguinte, na convenção estadual do PSDB, FHC rebateu as palavras de Lula e ainda disse que o PT ganha na gestão do PSDB apenas nos escândalos, na corrupção e na publicidade: “Teve coisas que eles fizeram mais que nós: muita corrupção, os escândalos, aí ganharam. Também gastaram muito. É muita publicidade, é muita propaganda para encobrir o nada. Aí ganharam”, atacou FHC, conforme matéria publicada pelo O Estado de S. Paulo na última segunda-feira (26), com o título “FHC diz não ser igual a ‘essa gente do PT’ e que Lula ‘é bom de garganta’” (página A4, caderno Nacional). O ex-presidente agrediu Lula por todos os lados, chamando-o de incompetente, além do “bom de garganta” mencionado pelo título do texto, clamando para comparar efetivamente os dois governos.

Em matéria publicada nesta terça-feira, na mesma página e seção do jornal (porém na parte inferior e com muito menos destaque), com o título “Lula sobre FHC: dor de cotovelo”, o atual presidente teria dito a seus assessores que FHC revelou “dor-de-cotovelo” ao atacá-lo no domingo, evidenciando um desespero em face de ampla vantagem que Lula demonstra nas pesquisas para o pleito presidencial. No entanto, Lula não disse nada oficialmente, segundo o jornal, pois seguiu orientações da estratégia de campanha lançada, em que sua defesa será feita por outras pessoas. Desta feita, o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, foi a bola da vez, e afirmou que FHC seria “um homem de muita coragem “ ao querer comparar seu mandato com o de Lula.

O que dá para apreender de todo esse bate-boca pérfido entre as duas siglas de maior representatividade no país? Justamente isso: o período eleitoral começou e, portanto, vale tudo para tentar minar as forças do inimigo. Nada mais importa para o PSDB o método (basta ler o texto e perceber a discriminação peessedebista contra os petistas), pois estão distantes de qualquer chance, no momento, de sobrepujar a vantagem de Lula e ataca de qualquer jeito para ver se consegue destemperar o atual presidente, para que este fale alguma bobagem para ser explorada pela imprensa tradicional.

Do outro lado, Lula mostra números e mais números, crente de que isto é suficiente para dizer que seu governo foi bom. E, de fato, as estatísticas parecem ter melhorado. Mas a troco do quê? De quem? É tão perceptível assim essa melhora para se vangloriar e querer achar que a batalha está ganha, sendo importante consolidar a aliança política dos próximos quatro anos a se preocupar com as eleições de 2006? É preciso compreender o que de fato os dois partidos querem mostrar com seus programas, projetos e idéias, que todas elas substituam as agressões, pois, o que interessa não é o arcabouço de baixo calão de cada partido e sim o que eles pretendem e vão fazer para melhorar o país, por mais que isso seja difícil de crer nos dias de hoje.


Críticas à economia

E para fechar o dia, vale a pena abordar o destaque que o Estado de S. Paulo tem dado, de forma sistemática, para os números da economia brasileira, principalmente aqueles que mostram um mau desempenho. Na página B5 do caderno de Economia, o título escancara: “Déficit do INSS cresce 37,5% com peso do mínimo”. O texto traz dados que indicam que a Previdência Social teve um aumento em seu rombo por causa do salário mínimo.

Na parte superior da página B5, mais porrada: “Balança tem a pior semana do mês”, ao mostrar que o superávit na balança comercial teve uma redução em relação ao mesmo período do ano passado, caindo de US$ 4 bilhões para US$ 2,4 bilhões. Isso por causa do crescimento das importações, segundo a matéria, suplantando as exportações, aliado ao problema da desvalorização do dólar.

Tudo bem, na parte superior da página B6 tem o título “Juro é o mais baixo desde 1994”, mostrando que a queda da taxa Selic finalmente começa a provocar reduções nos juros dos bancos. Se bem que a taxa de pessoa física recuar 1,7 ponto em maio, atingindo 56,1% ao ano, não é lá para comemorar tanto. Mesmo assim, numa chamada dentro da matéria com destaque em negrito com uma crítica dos empresários aos juros que ainda seriam muito altos. E só para fechar o noticiário econômico, no jornal de segunda-feira, logo na capa do caderno Economia (pg. B1) a questão do dólar influenciando a economia volta à baila: “Dólar fraco faz a indústria patinar”.

Esse tipo de material é importante, pois aponta os problemas que a economia brasileira enfrenta em suas várias áreas, que, com governo novo ou velho, persistem e atravancam o crescimento e o desenvolvimento econômico do Brasil. Mas, todo esse bombardeio jornalístico evidencia também a opção do jornal por criticar exaustivamente as opções do governo Lula em atuar de forma menos presa ao mercado internacional. E olha que isso ocorre apenas em alguns setores, já que em outros a ortodoxia continua e não deverá ter fim. Mas, mesmo assim, a crítica surge até quando a notícia é boa, caso dos juros ou de qualquer outra notícia que trate de algum avanço do governo atual – basta acompanhar com um pouco de cuidado o caderno de Economia do Estado.

E outra: essa redução no superávit da balança comercial, por exemplo, já estava prevista há séculos, pois quando aumenta o consumo, é fato que as importações de certos produtos aumentem. Se o Brasil exportasse menos insumos (o famoso agronegócio, que dá dinheiro para poucos) e mais produtos manufaturados, essa diferença. Ou seja, o problema não está na importação e sim no tipo de produto que exportamos e o retorno que ele dá.

No caso do salário mínimo, o que fazer? Deixar de aumentá-lo? É preciso deixar de desviar (ou contingenciar, como os tecnocratas dizem) verba do INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) para outros setores, aí sim poderemos ver se há déficit mesmo, o que eu duvido. O assunto dos juros, então, nem tem o que dizer. Os maiores credores do governo federal são os bancos, então eles atuam livremente para cobrarem o que quiserem e o governo assiste, pois não pode fazer nada, é refém deles e está de mãos atadas. Portanto, há outros aspectos que precisam ser analisados e que a cobertura da imprensa tradicional não cumpre.

Quem sou eu

Rodrigo Herrero é jornalista e pós-graduado em Política e Relações Internacionais na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP).

Seu projeto de pós-graduação, finalizado em 2006, procurou analisar comparativamente as políticas externas dos governos de Hugo Chávez, na Venezuela, e Luís Inácio Lula da Silva, no Brasil, com o objetivo de entender até que ponto o discurso esquerdista dos dois líderes latino-americanos (um mais radical e outro mais moderado) é levado à prática de políticas públicas condizentes com sua retórica e em que grau os interesses nacionais e as pressões internas bloqueiam esse ímpeto à esquerda.

Concluiu a graduação de jornalismo em 2004 com a apresentação de um livro-ensaio intitulado “O PT e a Social Democracia: de um programa de ruptura a administração do capitalismo”, voltado a analisar as mudanças ocorridas de objetivo no Partido dos Trabalhadores ao longo de sua história.

segunda-feira, junho 26, 2006

ARTIGO DA SEMANA - 26.06.06

A diferença entre o discurso e a prática

A pesquisa do Ibope divulgada na última terça-feira (13) que mostra a ampliação da vantagem de Lula sobre seus adversários na disputa presidencial fundamenta as bases do otimismo com que o Partido dos Trabalhadores tem desenvolvido seus discursos, suas articulações internas e produzido seus documentos. Foram esquecidas toda a corrupção e crise que assolou o partido até bem pouco tempo atrás.

O PT parte para a ofensiva, ancorado no bom desempenho de Lula antes as pesquisas (mais do que seu fraco desempenho no governo), nos números sociais que são disparadamente melhores do que os mandatos de FHC (apesar do fracasso do Fome Zero, que caiu no esquecimento), e nos ventos tranqüilos de um momento sem muita turbulência política, já que a direita pefelista e pessedebista não consegue macular a imagem de Lula, muito menos articular um candidato a presidente com desenvoltura nacional. Alckmin é o fiasco anunciado há muito e, só por um milagre, ganhará o corpo necessário para derrubar Lula.

Pelo menos é assim que pensa a nova (velha) cúpula do PT, presidida agora pelo deputado Ricardo Berzoini, com atores não tão exponenciais como José Dirceu e José Genoíno, mas que conseguem levar a militância petista no bico e tentam pressionar Lula para um segundo governo “mais à esquerda” ou, pelo menos, mais preocupado com o desenvolvimento sustentável e com um crescimento econômico maior.

Esse, ao menos, é a síntese do documento “Diretrizes para a Elaboração do Programa de Governo”, aprovado em abril durante o 13º Encontro Nacional do partido, que será a base do Programa de Ação de Governo (PAG), citado na última segunda-feira (12), quando o partido divulgou o calendário para a formulação do programa. A coordenação da Comissão Nacional do Programa de Governo está a cabo de Marco Aurélio Garcia, assessor para Assuntos Internacionais da Presidência e outro membro antigo do PT que ganhou mais espaço com o afastamento de lideranças históricas do partido.

Entre os principais temas abordados está o mais do mesmo do combate às desigualdades sociais, maior distribuição de renda, mais crescimento, reforma da educação, integração sul-americana, além de bater na tecla novamente sobre a questão dos juros, que, na visão do presidente do partido, deveriam receber maior corte, como destacou O Estado de S. Paulo no dia 12.

Duas coisas chamam a atenção: primeiro, que o PT já admite manter o abusivo superávit primário de 4,25% do PIB brasileiro como meta para ajuste fiscal, abandonando a crítica sistemática que possuía sobre o tema, que gerou até conflitos na cúpula do governo, principalmente com o ex-ministro da fazenda, Antonio Palocci. Está clara a admissão de um ato considerado à direita. Por outro lado, no programa há o desejo de vetar a autonomia do Banco Central. “Somos contrários à independência formal do BC. Há estratégias institucionais próprias do BC, mas ele responde a uma política econômica macro, que é decidida pelo legislativo e Executivo”, disse Berzoini para o Estado.

Essa atitude, classificada pelo referido jornal como uma “guinada à esquerda[1]”, pode aparentar que, como o PT está tranqüilo quanto à vitória de Lula, qualquer coisa vai passar no segundo mandato. Parece que muitos petistas se esqueceram do que pensaram quando da primeira Carta ao Povo Brasileiro (a segunda vem muito em breve), em que a cúpula do partido disse que faria exatamente o que está fazendo no governo hoje: “Ah, tudo bem, é para enganar a elite, quando chegar ao poder vamos manter as bandeiras históricas do partido”. Parece que alguns militantes desejam cair no mesmo erro novamente. Afinal de contas, as pessoas só acreditam no que querem ou no que convém a elas acreditar, até para dar uma resposta a seu eleitorado e poder se manter na política por mais tempo.

Entretanto, para quem percebe quem realmente manda no partido dos burocratas profissionais[2], é fácil notar que, no frigir dos ovos, todos abaixam as orelhas quando Lula discursa. É ele quem acaba por definir os rumos do partido, principalmente na questão eleitoral, que é o que realmente vale na única estratégia petista: manter-se no governo. A diferença é que suas palavras não possuem nenhuma tintura esquerdista, socialista ou qualquer “ista” que o valha e que permanece nas rodas de discussão do partido, algo tão vazio de sentido que parece um fantasma tentando lembrar sua infância. Lula, pelo contrário, encarna o pragmatismo sindical de quem quer vencer as próximas eleições e conseguir tocar seus projetos dentro da democracia burguesa que vivemos hoje.

E, para isso, ele negocia uma ampla aliança política com o PMDB e demais partidos corruptos, que compõem a direita tradicional que atrasa o país. Mas ele quer governar e, dentro das atuais condições e de sua lógica de sindicalista de resultado (vamos negociar e conseguir o que dá), somente esse tipo de aliança mesmo para conseguir base de sustentação de seu governo – tanto que os cargos de vice-presidente da República e de vice-governador de São Paulo foram oferecidos ao PMDB.

Por isso, o fato de Berzoini e a cúpula petista quererem mostrar desenvoltura em duros discursos, em prol de um segundo mandato presidencial que foque ainda mais o lado social, não indica necessariamente que Lula esteja concentrado neste esforço. É óbvio que o presidente da República se coloca em favor de projetos sociais, muito mais que o governo anterior, mas não quer dizer que os projetos serão atropelados e colocadas em prioridade máxima, como anseia o partido.

Ou seja: não se iludam petistas, movimentos sociais ou quem deseja votar em Lula, acreditando que as demandas históricas que o PT se comprometeu ao longo de sua existência - e que não foram atendidas nos primeiros quatro anos – serão praticadas com certeza e tranqüilidade num possível segundo mandato, pois, o que está em jogo acima de tudo é a manutenção do poder pelo partido. Se precisar renegociar com legendas historicamente adversárias, voltar atrás com bancos e fazer tudo o que foi feito de 2003 até aqui, será feito.

E o ônus, novamente, cairá sobre os trabalhadores que acreditam na legitimidade de Lula em fazer as reformas devidas, mas que, no fim das contas, tais reformas prejudicam acabam por minar cada vez mais a capacidade da população de ser beneficiada e de reivindicar as melhorias necessárias para as suas vidas e não apenas para pequenos grupos da sociedade.

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[1] Engraçado foi ler o primeiro parágrafo do texto do Estado: “Numa guinada à esquerda, o PT descartou ontem a inclusão da proposta de autonomia do Banco Central no programa de governo de um eventual segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”. Esquerda? Impedir uma independência de um órgão como o BC em relação aos demais poderes da nação é um ato de esquerda? Tudo parece culpa da esquerda (aliás, que esquerda?), eles são responsáveis por toda e qualquer ação que o jornal discorde. Fica claro que cada vez mais o discurso único aponta para o seguinte viés: qualquer coisa que fuja do receituário neoliberal é visto como de esquerda, reacionário, populista, atrasado, um erro. Essas generalizações são perigosas demais porque colocam qualquer coisa dentro do mesmo saco e querem dizer que só o receituário adotado atualmente é o melhor para o país. Pode até ser, mas para qual povo desse país?

[2] Afinal, a composição social do partido mudou radicalmente ao longo dos anos e o que prevalece no PT, em sua maioria, são políticos profissionais, que vivem daquilo. Basta ver o caso do Genoíno que e de Zé Dirceu que não tinham o que fazer da vida pós-escândalo, já que toda a carreira havia sido construída dentro da política.

Um retorno

Sim, este espaço voltou de uma vez por todas. Sem freqüência de atualização, sem idéia de tamanho de texto, muito menos de pauta, o que deverá reger aqui será a política brasileira, interna e externa, temas caros à minha pessoa.

A idéia agora é fazer disso daqui um local de treino à escrita desse tipo de material e, ao mesmo, tempo, para manter acesa a chama e o oritmo acelerado neste tipo de trabalho.

Espero te ver mais vezes por aqui.