Jornalismo e Política

terça-feira, novembro 14, 2006

Situações semelhantes, momentos distintos

Reza a "lenda" que o texto abaixo foi recusado pela Folha de S. Paulo, que havia pedido para a professora escrever sobre algum ex-presidente brasileiro. Após ver essa "coincidência", decidiram censurar. "Lenda" nada. Isso foi citado no Blog do Mino Carta, mês passado. Veja o texto e diga sua opinião!

Texto retirado do link: http://www.olharvirtual.ufrj.br/2006/index.php?id_edicao=134&id_tp=3&codigo=06_10_05.

Ivana Bentes, diretora da Escola de Comunicação (ECO/UFRJ), produziu um texto em que elegeu um antigo presidente da República, já morto, que, de volta, comenta os fatos políticos de agora. O escolhido foi Jango. Leia e confira na editoria “Painel de Argumentos”, pois qualquer semelhança não é mera coincidência.

Play it again, Jango!

Ivana Bentes, pesquisadora e diretora da Escola de Comunicação da UFRJ

Morri no exílio, na província Argentina de Corrientes, em 6 de dezembro de 1976, sozinho, vítima de ataque cardíaco, numa fazenda da fronteira. Tentava voltar para o Brasil, de onde me expulsaram com o Golpe Militar depois que anunciei, no dia 13 de março de 1964 num comício para 150 mil pessoas na Central do Brasil que iria fazer a Reforma Agrária, Urbana, as reformas na Educação, a Reforma Eleitoral, Tributária...

Não deixaram fazer nada e me derrubaram! As forças mais conservadoras da sociedade Brasileira se uniram e foram convocadas a me depor, toda a imprensa ficou contra mim. Esse já era o terceiro golpe midiático-militar, botaram a classe média horrorizada na rua, as senhoras da TFP, editoriais alarmistas e moralistas, páginas e páginas de jornais, rádio, TV. Assustaram todos até que cai no dia 1º de abril de 1964.

Não adiantou, estou de volta! Não sei como, só sei que eu João Jango Goulart, ex-presidente deposto, retornei, é dia de eleição e estou concorrendo de novo para Presidente do Brasil. Mudei de partido. Estou grisalho, perdi um dedo da mão (onde?) e me dou conta que as forças que me derrubaram em 1964 estão quase todas aí. Continuo com apoio popular, estou com enorme vantagem nas pesquisas, mas por que os jornais dos últimos meses são todos contra mim e meu partido? Estou sendo de novo linchado? Em 64 diziam que eu ia implantar o Comunismo no Brasil e agora que estou implantando a Corrupção em Pindorama!

Meu assessor me informa que vamos assistir a fita com o meu debate na Televisão. Estou reconhecendo o pessoal da pesada de 64. Então tenho uma visão exata de quem eu sou e o que represento no Brasil de 2006, me vendo pelos olhos dos meus inquisidores. Roda o VT. Não, dá um play. Play it again, Jango! Ouço, e então presente, passado e futuro se dobram na tela da TV.

Entrevistador e dono de uma empresa de TV.

_ Senhor Presidente, de todas as reformas que o senhor propôs, uma é a mais perigosa de todas, é um acinte aos empresários da Comunicação, de Rádio e TV. Sr. Presidente, o senhor tentou entrar na nossa caixa preta, regular nossas empresas com uma Agência. Nos somos contra, Sr. Presidente! Onde já se viu? Deu está dado! Não queremos ninguém novo no negócio. Canal de TV pra Ong, pra Universidade, pra favela? Eles não precisam de nada disso e ainda fazem uns vídeos que são umas porcarias. Qualidade temos nós com essa imagem plastificada, atrizes esticadas digitalmente, programas incitando à delação. Eles a gente emprega pra figuração, usa para vender celular e fazer propaganda da nossa diversidade cultural. Os pobres tem estilo, são vibe, hiper, mob, servem pra vender quinquilharia e show. Mas dar canal de TV pra essa gente, Presidente?

Jango. Eu tenho um ministro da cultura que é músico e negro e quer botar ilha de edição, câmeras de vídeo e internet de graça por onde der. É o início da Reforma da Cultura, da Educação, da Comunicação, junto com o Fundeb, o Fundo para a Educação, que eu criei lá em 62, e reeditamos agora. Por que ninguém fala do FUNDEB?! Eu tenho orgulho de estar implantando o Fundeb!! As cotas no Brasil! Estou botando os negros e os pobres dentro da Universidade. Temos que acabar o vestibular, tornar o acesso universal. Além disso eu criei o Bolsa Família, tirando um contingente da miséria, é a maior transferência de renda já feita nesse país. Eu apoio o MST, os Sem-Terto! Me deixem fazer as Reformas! As novas e aquelas, que vocês abortaram em 64!

Professor-Doutor-Pesquisador

_Desculpe, sr. Presidente. Eu fiz mestrado com bolsa Capes, doutorado com bolsa sanduíche em Paris VIII, CNPQ, e tive bolsa de pós-doutorado em Oxford. Meus alunos têm bolsa de iniciação artística, científica, extensão... Mas eu sou CONTRA a Bolsa Família!!! É assistencialismo dar R$ 50 (é muito, acostuma mal) para pobre. Populismo, sr. Presidente! Minhas bolsas eu ganhei todas por mérito. MÉRITO! E olhe que sou bolsista há 10 anos! Deus me livre perder minha bolsa!

Antropóloga, antes de entrar na roda de debate.

_ Ô diretor, chama um negro ai para aparecer no programa, mas tem que ser contra as cotas. A gente é branco, professor-doutor, não vale. É pro povo entender que é uma merda, que eles tem que entrar para a Universidade sozinhos, por mérito, se não vai cair o nível da universidade. Botar um antropólogo branco, louro de olhos azuis falando mal das cotas não vale, vão cair de pau na gente. Tem que ser negro falando mal das conquistas dos negros.

Diretor de TV

_Você sabe, a gente detona as cotas diariamente nos editoriais, colunas, manchetes, mas nas novelas tem que ser a garota negra com o galã branco. Botamos na tela uns negros limpinhos, bonitos, cheios de dignidade. Provamos que eles vão vencer sozinhos. COTA pra que? Nunca fomos racistas! Querem criar o racismo no Brasil, senhor presidente, O senhor está muito mal assessorado nessa área. Aliás, não vai ter cota para negros em empresas de TV, vai? Deus me livre! Não dá pra fazer Escrava Isaura no Leblon.

Entrevistador-cronista-consultor

_Senhor Candidato, o senhor está na frente das pesquisas, mas como esse povo ignorante, desdentado, feio, pode decidir por mim? EU que frequentava o Palácio do Planalto, que era amigo e confidente do sociólogo, seu cronista-conselheiro. EU que sou especialista em pornografia política. Achei que poderia ser de direita mas escrever genialmente como o Nelson , mas não tenho esse talento. Estou aqui me olhando na TV e só vejo um publicitário mal sucedido, porque o MEU candidato a presidência vai perder as eleições e meus amigos vão ficar fora do poder. Sou a encarnação das forças do ressentimento. Pelo menos sou psicanalizado, me acho um crápula, mas tudo bem. Os empresários me pagam 10, 20 mil por palestra ou consultoria para EU anunciar o Apocalipse. Não tenho o que perguntar só queria dizer olhando bem na sua cara. Eu te odeio, Sr. Presidente e morrerei escrevendo contra tudo o que o senhor significa (baba).
Apresentadora de TV. Então Sr Jango, depois de ouvir isso tudo sobre o seu governo, o que significará a sua reeleição?

Jango: “O triunfo da beleza e da justiça”. E não me chamem mais de Jango, o ex-presidente morreu, no golpe de 64, exilado na fronteira, em 1974. O novo presidente nasceu das crises que vocês criaram, tentando me derrubar , uma duas, três, quantas vezes? Não estou mais só, em 2006, tenho 55% das intenções de votos, atingi o coração do Brasil, sou uma radicalização da democracia. Meu nome é Muitos. Sou uma potência da Multidão.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Serra, esquerda?

essa aqui vale a pena ser lida do início ao fim. Só o nosso futuro governador, José serra, pra achar que ficou algum vazio político e, pior, querer criar um partido de esquerda. Que esquerda, cara pálida? Serra de esquerda? Esquerda moderna? Sei, conheço esse discurso. O PT tá aí pra mostrar que modernidade é essa.

Cada uma, podiam criar um novo partido, ele, o Aécio Neves e o Lula, que perfeito! Aí sim seria o suprasumo do que o filósofo Chico de Oliveira fala sobre o tal ornitorrinco, ou seja, a junção de PT e PSDB em algo único, mais ou menos como é hoje. Incrível.

Texto retirado do link: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u86357.shtml

06/11/2006 - 13h16

Serra cogita criar partido de centro-esquerda

ELIANE CANTANHÊDE
KENNEDY ALENCAR

Colunistas da Folha Online

O governador eleito de São Paulo, José Serra, cogita liderar a criação de um novo partido de centro-esquerda. Em conversas reservadas, ele avalia que há um "vácuo político" no país depois do acirramento das divisões internas do PSDB e dos escândalos que levaram o PT à sua maior crise.

Serra, que se elegeu em primeiro turno, com 57,93% dos votos válidos, tem contatos em todos os partidos, em todos os Estados. Conforme a Folha apurou, ele já começou a mapear informalmente deputados, senadores e líderes regionais que possam integrar a nova legenda. É uma alternativa para um rearranjo partidário que imagina que terá início a partir das eleições de 2006 e como saída para o caso de a disputa interna no PSDB pela candidatura a presidente em 2010 chegar a um nível de racha extremo.

O perfil desse partido seria nacionalista, mas moderno. Seria uma legenda "desenvolvimentista" que deixaria claro que não deseja colocar em risco a estabilidade. Defenderia um Estado ajustado do ponto de vista fiscal, mas ativo e forte nas relações de indução do crescimento econômico.

Serra considera que se firmou nacionalmente como "a esquerda moderna", capaz de assumir um projeto desenvolvimentista para o país, sem criar a sensação de descontrole das contas públicas e de leniência com a inflação --ou seja, sem aventuras e sem assustar o mercado financeiro.

Ele também tem defendido o retorno de um discurso nacionalista, que sumiu do debate interno depois de ser confundido ao longo do tempo com idéias atrasadas e anti-globalização. Na versão de Serra, o nacionalismo moderno seria caracterizado por abertura ao mercado internacional, mas com fortes doses de proteção ao interesse brasileiro em alguns setores.

Os quadros desse novo partido dos sonhos do futuro governador de São Paulo viriam de praticamente todas as legendas, desde o próprio PSDB até o PP gaúcho --que está à direita no espectro político--, passando por PMDB, PPS, PSB, PDT, PV e sem descartar parlamentares e ex-parlamentares do PT.

Entre os nomes citados, estão o ex-governador e agora senador eleito Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), os deputados federais Fernando Gabeira (PV-RJ), Roberto Freire (PPS-PE), Jutahy Magalhães Jr. (PSDB-BA), Eduardo Paes (PSDB-RJ) e Júlio Delgado (PSB-MG).

Serra não descartaria, também, nomes sem mandato, como o ex-ministro e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Nelson Jobim, cotado para uma pasta no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na versão de Serra a seus interlocutores, o quadro partidário está esgotado depois da chegada do PT ao poder e da vitória da reeleição de Lula, que completariam um ciclo político no país depois do fim da ditadura militar, em 1985.

Um outro fator decisivo para o movimento do governador eleito é a divisão do PSDB, hoje com dois fortes potenciais candidatos à Presidência em 2010: ele, Serra, e o governador reeleito de Minas, Aécio Neves.

Os dois têm conversado e acertado uma espécie de pacto de boa convivência, mas os próprios tucanos apostam que Serra e Aécio devem ter posição moderada em relação a Lula no início do segundo mandato, devendo, porém, tomar caminhos diferentes até 2010.

Serra quer se preservar como líder da centro-esquerda anti-Lula, enquanto Aécio apontaria para uma posição de maior aproximação e conciliação com o Planalto e com forças políticas de centro, como o PMDB governista.

A outra ponta peemedebista, de oposição a Lula no primeiro mandato, é também conhecida como "PMDB serrista". Esse grupo é integrado, por exemplo, pelo presidente do partido, Michel Temer (SP) --aliás, outro candidato a se filiar à nova legenda.

Em determinado momento nos próximos quatro anos, mais perto da eleição de 2010, Serra deverá assumir posição forte como anti-Lula, explicitando divergências num tom maior do que de Aécio, que aposta num caminho de conciliação pelo centro do espectro político.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Internet Controlada?

Estou no meio do trabalho, organizando as coisas pós-evento religioso de semana passada. Tá tudo calmo demais por aqui, é hora de planejar 2007, rever etapas, etc. Hoje é 06 de novembro e o clima, pelo menos para mim, é de fim de feira. Posso estar enganado.

Mas enfim, nessa arrumação da casa estou sem tempo pra comentar a notícia que vou postar aqui e é da maior gravidade: há um projeto de lei querendo controlar o acesso e a navegação pela internet. O cara do tucanato que foi acusado de curtir um financiamento de campanha com dinheiro suspeito (senador Eduardo Azeredo, PSDB-MG) e que fez com que as acusações contra o PT sobre o mesmo assunto à época diminuíssem (acordo de cavalheiros, é como chamam) é o autor da maravilha. Não podemos deixar isso acontecer. Mais esse atentado contra a liberdade digital.

Leiam o texto, retirado do link: http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u20908.shtml.

06/11/2006 - 09h08
Projeto quer controlar acesso à internet


ELVIRA LOBATO
da Folha de S.Paulo, no Rio

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado votará, na próxima quarta-feira, um projeto de lei que obriga a identificação dos usuários da internet antes de iniciarem qualquer operação que envolva interatividade, como envio de e-mails, conversas em salas de bate-papo, criação de blogs, captura de dados (como baixar músicas, filmes, imagens), entre outros.

O acesso sem identificação prévia seria punido com reclusão de dois a quatro anos. Os provedores ficariam responsáveis pela veracidade dos dados cadastrais dos usuários e seriam sujeitos à mesma pena (reclusão de dois a quatro anos) se permitissem o acesso de usuários não-cadastrados. O texto é defendido pelos bancos e criticado por ONGs (Organizações Não-Governamentais), por provedores de acesso à internet e por advogados.

Os usuários teriam de fornecer nome, endereço, número de telefone, da carteira de identidade e do CPF às companhias provedoras de acesso à internet, às quais caberia a tarefa de confirmar a veracidade das informações.

O acesso só seria liberado após o provedor confirmar a identidade do usuário. Para isso, precisaria de cópias dos documentos dos internautas.

Críticas

Os provedores de acesso à internet argumentam que o projeto vai burocratizar o uso da rede e que já é possível identificar os autores de cibercrimes, a partir do registro do IP (protocolo internet) utilizado pelos usuários quando fazem uma conexão. O número IP é uma espécie de "digital" deixada pelos internautas. A partir dele, chega-se ao computador e, por conseguinte, pode-se chegar a um possível criminoso.

Principais alvos do cibercrime, os bancos e os administradores de cartões de crédito querem a identificação prévia dos internautas. O diretor de Cartões e Negócios Eletrônicos da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), Jair Scalco, diz que não adianta criar leis para punir as fraudes na internet se não houver a identificação obrigatória de todos os internautas. Ele defende que os registros de todas as conexões sejam preservados por pelo menos três anos.

O projeto recebeu muitas críticas. "É uma tentativa extrema de resolver a criminalidade cibernética, que não surtirá efeito. O criminoso vai se conectar por meio de provedores no exterior, que não se submetem à legislação brasileira, ou usará laranjas [terceiros] e identidade falsa no Brasil", afirma o presidente da ONG Safernet (Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos), Thiago Tavares. A entidade é dirigida por professores da Universidade Federal da Bahia e da PUC daquele Estado.

Para Tavares, o projeto, se aprovado, irá burocratizar e restringir o acesso à internet. "Não se pode acabar com a rede, em nome da segurança, porque ela nasceu com a perspectiva de ser livre e trouxe conquistas muito grandes, como a liberdade de informação e de conexão", afirma.

Para ele, os provedores tenderão a dificultar o acesso das pessoas à rede mundial de computadores, com medo de serem responsabilizados criminalmente por atos dos usuários.

Lobby

O relator do projeto é o senador Eduardo Azeredo (PSDB), ex-governador de Minas Gerais. Os especialistas do setor dizem que o mentor das mudanças é o assessor de Azeredo José Henrique Portugal, ex-dirigente do Serpro, estatal federal de processamento de dados.

O presidente da ONG Safernet diz que, por trás da identificação e da certificação prévias dos usuários da internet, está o lobby das empresas de certificação digital, espécie de cartórios virtuais, que atestam a veracidade de informações veiculadas pela internet.

De acordo com ele, o projeto está na contramão da democratização do acesso à internet, ou inclusão digital, pretendida pelo governo.

sábado, novembro 04, 2006

O MST e o segundo mandato de Lula

O MST divulgou nessa sexta-feira um texto fazendo uma espécie de balanço da atuação do movimento nos primeiros quatro anos do governo Lula e o que esperar do segundo mandato. Nada muito diferente do que já foi dito antes, a não ser que os movimentos devem “cobrar e exigir as mudanças políticas que atendam aos interesses do povo”. O Blog do Josias de Souza, da Folha de S. Paulo, alardeia que esse é o mote do MST agora, que acabou a trégua com o governo Lula, etc.

Mas não creio muito nisso. Os movimentos sociais brasileiros se dizem independentes, autônomos, e até o são na prática diária. Mas quando precisam reivindicar algo e entrar no embate político, ainda estão reféns da esperança que o PT impulsionou nos seus primeiros anos de partido, aguardando as mudanças, aceitando as desculpas esfarrapadas do governo, ocupando terras e mais terras, sem ter nenhuma posição prática do atual governo, assim como ocorria com FHC.

A diferença é que agora há diálogo, apesar de ser insípido e ineficaz do ponto de vista de chegar a alguma solução. Parece mais que Lula vai levando os movimentos sociais no bico, assim como leva setores políticos, empresários, etc. Só assim consegue fazer acordos nos dois extremos do espectro político. Isto é prática comum na política brasileira pouco ideológica na atuação partidária. Mas ela é muito ideológica na defesa dos interesses, quando ameaçadas, como foi nesse segundo turno, que fez com que o MST se voltasse a favor da vitória de Lula, demonstrando, mais uma vez, essa dependência da esquerda que ta no poder, mesmo que ela não mais represente seus interesses.

Apesar disso, o MST ainda acha o governo Lula diferente da candidatura de Alckmin, e tem mesmo lá suas diferenças. Mas, no frigir dos ovos, o que mudou com a vitória de Lula? Fica difícil de ver algum progresso para a Reforma Agrária. Ao menos, os movimentos continuam lutando, uma disputa inglória e sem muitas alternativas, infelizmente, pois ainda dependem de um governo que prefere não radicalizar para não perder essa governabilidade fajuta que não o permite mudar nada estruturalmente.

Abaixo está o texto do MST, leiam e tirem suas conclusões.

Retirado do link: http://www.mst.org.br/mst/pagina.php?cd=2349

Estimular as lutas sociais e construir um novo projeto para o país
03/11/2006

Passado o processo eleitoral, apurados os votos e conhecidos os vencedores e os perdedores das urnas, chega o momento de fazermos um balanço e de olhar para frente. Mais do que contar o número de parlamentares e de governos progressistas eleitos é necessário fazer um esforço para analisar nossa atuação, conquistas e desafios para o próximo período.

Há tempos percebíamos que a esquerda iria participar de forma dividida e fragilizada destas eleições. As causas são inúmeras e, certamente, serão aprofundadas e melhor debatidas nos próximos meses. Entretanto, dois elementos merecem destaque. A decepção com o governo Lula, incapaz de romper com a política neoliberal implementada pelos governos antecessores; e a forma com que alguns setores da esquerda copiaram o jeito burguês de fazer política, o que resultou numa série de denúncias de casos de corrupção e de práticas eleitoreiras.

Diante deste quadro, a grande questão era como nos posicionaríamos e como sairíamos do processo eleitoral. Para nós do MST, se consolidou a decisão de que deveríamos garantir, ao final dessa travessia, nossa unidade política e nossa autonomia frente aos partidos políticos e aos governos.

O primeiro turno
A campanha eleitoral foi completamente despolitizada, não houve disputas de projetos políticos e os partidos de esquerda demonstraram que não possuem estratégias organizativas, ideológicas e políticas. O governo Lula, crente que ganharia no primeiro turno, priorizou a divulgação das suas políticas assistencialistas e o estabelecimento de um amplo leque de alianças partidárias (da esquerda à direita). Como resultado, a militância social não foi convocada e os movimentos populares se sentiram de lado da disputa eleitoral.

Diversos setores da esquerda e dos movimentos sociais há tempos analisam que há um esgotamento da democracia do Estado burguês, que restringe a participação popular unicamente para os períodos eleitorais. Para essas forças políticas, que não desconsideram o processo eleitoral, a prioridade é aumentar os níveis de organização e consciência da população e promover a luta social. Elementos que são essenciais para alterar a correlação de forças com a burguesia, promover as mudanças e criar mecanismos concretos de participação popular direta nas decisões legislativas e no executivo. Por isso, sinalizam que a reforma política não pode apenas se restringir à mudanças pontuais, mas sim buscar seu objetivo principal: garantir ao povo o exercício do poder.

A estratégia de reeleição do governo Lula, demonstrada por sua coordenação de campanha, excluiu os debates sobre projetos estratégicos para o país e a defesa dos interesses de classe. Este fato, somado ao caso da tentativa de compra do dossiê, ajudou a afastar a militância e as forças populares que queriam politizar a campanha. Por outro lado, a direita usou sem nenhum escrúpulo, toda sua força nos meios de comunicação para se aglutinar em torno da candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB). Com isso, conseguiram levar a eleição para o segundo turno e dar energia à diversas candidaturas de direita nos estados.

O segundo turno
No segundo turno avaliamos, juntamente com outros movimentos sociais, reunidos na Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) e na Via Campesina Brasil, que era possível no momento promover um verdadeiro debate de idéias, projetos políticos e de luta de classes. Era preciso impedir que as forças políticas reunidas em torno da candidatura de Alckmin saíssem vencedoras dessas eleições. Não compartilhamos a idéia de que as duas candidaturas eram iguais e indiferentes.

Havia interesses de classe divergentes atrás de cada candidatura. No mínimo, a vitória de Lula representaria, simbolicamente, a vitória da classe trabalhadora, a manutenção de alianças na América Latina com governos progressistas e o respeito aos movimentos sociais. Esse novo posicionamento no processo eleitoral fez com que nos engajássemos na campanha pela reeleição de Lula. O que não significou desconsiderar os erros e as fragilidades cometidas no primeiro mandato. Entre eles, a falta de um projeto claro que enfrente os problemas estruturais do povo, como a realização da Reforma Agrária.

Além de buscar a politização da eleição presidencial e de evidenciar que, independente do governo Lula, estávamos numa disputa de classes, avaliamos que o segundo turno das eleições poderiam servir para potencializar a participação dos movimentos populares, buscando maior unidade em torno da idéia da construção de um projeto popular para o país. É inegável que houve acertos e vitórias nessa decisão. A maioria dos movimentos sociais se engajou nas discussões e na campanha. Mas tudo isso sem ilusões e com a convicção cada vez maior, que as transformações vêm das ações da própria sociedade. Daí a necessidade dos movimentos populares terem autonomia, elaboração teórica e capacidade de mobilização.

O novo mandato
Assegurado mais um mandato para o governo Lula, é hora de cobrar e exigir as mudanças políticas que atendam aos interesses do povo. O Presidente, em seus primeiros pronunciamentos após a reeleição, destacou a necessidade de promover o desenvolvimento econômico associado com medidas de distribuição da riqueza e renda.

Essa afirmação não pode se restringir ao entusiasmo de quem derrotou eleitoralmente a burguesia. É preciso que ela se transforme em ações concretas. Isso exige uma ruptura com a política econômica neoliberal e, acima de tudo, um enfrentamento com os poderosos interesses dos que monopolizam as terras (rurais e urbanas), as comunicações e o sistema financeiro.

É necessário também lutarmos para que seja fortalecida a integração solidária dos países latino-americanos, de forma a se contrapor à mentalidade colonizada da elite brasileira e fazer frente ao imperialismo estadunidense. Assim, devemos cobrar ainda mais do governo reeleito a imediata retirada das tropas militares brasileiras do Haiti e a implementação de uma política de ajuda solidária ao povo daquele país.

A reforma política é necessária, mas ela precisa atender aos interesses do povo e não dos políticos. Criar novos mecanismos de participação, implementar assembléias e conselhos, orçamento participativo, plebiscitos e referendos populares.

Estes são desafios que cabem ao governo reeleito. Mas, também são desafios das forças sociais que querem construir um país com base na democracia, na justiça social, na soberania e na defesa do meio ambiente.

Nós do MST e outros movimentos sociais seguimos com nosso papel de contribuir para elevar o nível de consciência e organização do povo brasileiro. Estimular as lutas sociais e construir forças unitárias ao redor de um novo projeto pro país: este é o trabalho que temos pela frente!

Secretaria Nacional do MST
3 de novembro de 2006

sexta-feira, novembro 03, 2006

Jornais europeus destacam Lula

Em ritmo de feriado vou postar algo mais rápido aqui, pois estou cansado e também mereço folga! Vale a pena a repercussão nos dois jornais brasileiros de São Paulo (irônico isso, não?) sobre as declarações de Lula a periódicos europeus a respeito da polítca externa brasileira.

Temos dois links

Da Folha, via BBC: 'Brasil não quer liderar nada', diz Lula a jornais europeus

Do Estado, tmabém via BBC: Brasil precisa de 'Operação Mãos Limpas', afirma Lula

A primeira destaca o papel do Brasil no cenário internacional, as relações deste com os demais países, as estratégias de consolidação de uma suposta ldierança na América Latina, negada pelo presidente reeleito, o embate entre ele e Chávez no campo das relações fora da AL e até mesmo dentro do subcontinente. Já a segunda destaca a as declarações do presidente sobre a reforma política, o que o país precisa fazer para diminuir a corrupção, temas mais internos, mas que são de grande relevância para a comunidade internacional atestar credibilidade ao governo do ex-operário.

É complicado essa obrigatoriedade de ter que dar espaço a isso, contudo, hoje em dia, os países têm que passar boa imagem interna e externamente, senão exportam menos, conseguem menos empréstimos, por conseqüência, investimentos, perdem aliados, mercados. É uma interdependência danada. Claro que, as potências maiores dependem menos de passar imagem de boa Amélia, mas também dependem de sua imagem no exterior.

Voltando à análise, a diferença entre uma matéria e outra é que, enquanto a Folha colocou no começo do texto a questão das relações internacionais e colocou os debates sobre a reforma política na parte debaixo do texto, o Estado fez o contrário, destacando o que Lula falou sobre as mudanças que pretende engendrar na política brasileira. É interessante notar esse tipo de coisa, ver qual a prioridade temática - e, muitas vezes, até de interesse - de cada jornal. Nem estou dizendo que os textos estão direcionados, nada disso. Mas é bom pra saber tais diferenças quando pegarmos pela frente textos tendenciosos, que invertem uma informação para tirá-la do contexto e diminuí-la em importância, pois há interesses maiores nela, etc.

E para finalizar, uma pergunta: porque os dois jornais braisleiros pegaram o material da BBC, se o presidente Lula deu as entrevistas aos jornais europeus? Não dava pra ler, traduzir e fazer uma matéria repercutindo tais declarações? É mais fácil já copiar do que está pronto... Ê preguiça e visão empresarial que tolhe os correspondentes internacionais, enxuga redações, limita a reflexão e análise, reduzindo a qualidade nos periódicos "nativos", como diria Mino Carta.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Edição Extra!

Não é nem 11h da manhã, mas o motivo vale um post em edição especial. No blog do Mino Carta (diretor de redação da revista Carta Capital) tem um escrito muito interessante sobre a editora Abril e o governo federal. Olha, vale a pena ler e colocar todos em estado de alerta para mais um golpe na democratização da comunicação e, também, em mais um conchavo entre mídia e pólíticos.

Se a revista Veja sempre criticou o Lula por razões ideológicas e agora resolve maneirar para ver se a Abril consegue liberação para explorar o mercado de internet - por conta de um de seus novos sócios, que comppou 30% das ações da editora -, é preciso ficar atento a essa movimentação e fazer de tudo para barrá-la, ou mesmo compreendê-la quando ler algum material "jornalístico" produzido por essa empresa. Jornalístico entre aspas por quê? Ah, fica difícil a independência que o jornalismo necessita com relação dúbia, de interesses, não acham? Leiam o texto do Mino Carta e depois digam o que acham.

30/10/2006 18:11
Civita e o governo


Engana-se quem aponta a edição de livros didáticos como o centro das pendências da Abril com o governo federal. Roberto Civita, boss da editora, mira em negócio muito mais fabuloso, a internet sem fio. Especialistas falam em centenas de milhões de reais. Outros, em bilhão.

Ao enredo: Civita tem tido conflitos recorrentes com os capatazes da revista Veja. Há alguns meses pede moderação em relação ao governo Lula. Reportagens contra o PT e a administração federal teriam sido engavetadas. Nos corredores da empresa, o boss arriscou-se a afirmar que contrataria Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, para administrar a Abril.

No início dos anos 90, a Abril ganhou de graça, e sem concorrência, concessões de MMDS no Rio, São Paulo e sul do País. A freqüência teve pouca utilidade até agora, já que a tevê por assinatura desenvolveu-se de outras formas. A internet sem fio deve, porém, utilizar essa faixa. As perspectivas do novo negócio são animadoras. Ou seja, as concessões que não valiam nada viraram ouro.

Em meados de abril passado, a Casa Civil solicitou que o Ministério das Comunicações fizesse uma consulta à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A ministra Dilma queria saber se as concessões dadas há mais de 15 anos estavam de pé ou, em nome da concorrência e da inclusão digital, não seria o caso de promover novas licitações de MMDS. Justamente nas áreas onde a Abril detém virtual monopólio.

Na Anatel, o placar foi 2 a 2. Os conselheiros indicados por FHC rejeitaram a proposta de nova licitação, o que atendia ao interesse da Abril. Os indicados por Lula foram a favor da consulta da Casa Civil. Pelas regras da agência, em caso de empate, vale a decisão anterior. Tudo ficou na mesma. Por enquanto. O governo ainda precisa indicar mais um conselheiro. Nesse caso, uma nova consulta da Casa Civil poderia interferir nos negócios da família Civita.

Diante dessa perspectiva, Civita foi à luta. Esteve reunido com Dilma Rousseff para tratar do assunto. Foi levado ao encontro por Sidnei Basile, Diretor de Relações Institucionais da Abril. Hélio Costa, das Comunicações, esteve duas vezes no prédio da Marginal Pinheiros que abriga o grupo. Enquanto isso, Civita exigia moderação dos subordinados, para não melindrar o governo.

Em tempo: os principais negócios do grupo sul-africano Naspers, que comprou 30% do capital da Abril por 422 milhões de dólares, são tevê por assinatura e, vejam só, internet. Retirado do link:

http://z001.ig.com.br/ig/61/51/937843/blig/
blogdomino/2006_10.html#post_18676252
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