O problema são os juros
Bancos lucram com taxas, enquanto população se endivida cada vez mais
Rodrigo Herrero
Um tema recorrente nos dias de hoje se refere aos juros. Seja relativo ao cartão de crédito, a uma compra no crediário, a um empréstimo feito a uma financeira, ao que é (absurdamente) cobrado pelos bancos, ou mesmo a taxa de juros Selic (para entender mais sobre o tema, clique aqui), que vive como tema de discussões acaloradas nos meios de comunicação na ciranda partidária.
Os juros baixos possibilitam que os produtos se tornem mais acessíveis às grandes massas de trabalhadores que ganham pouco e não reúnem condições de adquirir produtos à vista e recorrem a financiamentos, empréstimos ou crediários de todo o tipo. O aumento do consumo aumenta a lucratividade das empresas, que podem investir em sua estrutura e, conseqüentemente, crescer, o que torna possível a contratação de mão de obra, diminuindo o índice de desemprego, fazendo com que mais pessoas tenham renda, podendo comprar, aumentando o consumo...
Enfim, essa verdadeira ciranda de consumo/investimento/emprego é importante para o crescimento do país e para uma melhor distribuição de renda. Claro que somente a redução dos juros não resolve todos os problemas, é preciso que o governo incentive a produção, realize obras de infra-estrutura (como a construção de portos e aeroportos, estradas, ferrovias), que as empresas não segurem somente os lucros, que invistam e contratem mais pessoas. Que os novos trabalhadores consumam mais e, para isso, que os juros permitam isso.
O problema é, que se os juros da taxa Selic têm sido reduzidos sistematicamente, ainda que de forma tímida pelo governo, os juros praticados pelos bancos são, na verdade, impraticáveis. Por exemplo, na pesquisa feita em setembro pelo Procon de São Paulo, a taxa média dos bancos pesquisados foi de 5,27% ao mês, representando quase nenhuma variação em comparação ao mês passado.
Só que o Procon faz uma ressalva quanto a esse número: “essa manutenção temporária das taxas, na prática, não altera a situação do tomador de crédito, que continua a pagar uma das maiores taxas de juros do mundo. A expansão do crédito, de um lado, permitiu que um maior número de pessoas tivesse acesso a várias linhas de financiamento, mas, de outro, encorajou o aumento do consumo sem o correspondente aumento da renda. O resultado foi a ocorrência de altos índices de endividamento. A orientação ao consumidor é que o planejamento criterioso do orçamento continua sendo a melhor atitude a ser tomada”.
Crédito farto
É histórico o tanto de crédito que está disponível na praça nos dias de hoje. O governo atual fez um enorme esforço para facilitar o acesso ao crédito pelas camadas mais pobres da sociedade (o que elas fazem, se estão instruídas para tal ou se acabam por se endividar ainda mais, ninguém se importa), só que os juros e as taxas bancárias e de financeiras emperram um maior acesso.
Cobra-se por tudo, se incentiva que as pessoas recorram ao crédito, e nessa hora facilitam tudo. Mas na hora de acertar o pagamento, o cliente vai reparar que caiu numa cilada e simplesmente não consegue pagar os juros impostos por financeiras e bancos. Cartão de crédito, então, nem pensar. Os valores exorbitantes tomam o salário da pessoa, que não conseguiu reunir o dinheiro necessário para pagar toda a fatura. No mês seguinte, os juros são implacáveis, causando uma verdadeira bola de neve para o consumidor, que não consegue mais pagar, muito menos adquirir um novo bem, encurralado em meio a tantas dívidas.
A falta de controle ante as ofertas, o incentivo ao consumo desenfreado e descartável, aliado a taxas impraticáveis de juros, impossibilitam que o trabalhador tenha como se sustentar, aumentando a precariedade dos empregos oferecidos e a disputa quase servil por trabalho e cargos, sem falar na explosão do comércio informal, sem garantia alguma a quem envereda por essa, por vezes, única via de conseguir dinheiro.
É preciso que se tenha um controle maior sobre os juros cobrados pelos bancos, pois, não há como incrementar ainda mais o consumo se o trabalhador não tem verba para comprar. Se o governo é chamado a reduzir a taxa da Selic para aumentar os investimentos a partir do mercado financeiro, é essencial que o governo cobre para que todos assumam uma parcela da conta. Dificilmente um banco faz esse tipo de corte em seus dividendos, mas é preciso que eles assumam tal responsabilidade, já que, mês a mês, são noticiados nos jornais os balanços dos bancos, com lucros cada vez maiores.
Fonte: Portal Padre Marcelo Rossi

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