terça-feira, julho 18, 2006

NOTÍCIA DO DIA – 18.07.06

Terrorismo ou Intervencionismo?

Saíram hoje duas notícias na Agência Brasil (órgão de notícias ligado à Radiobrás) a respeito de uma moção aprovada pelos deputados dos Estados Unidos para a criação de uma força-tarefa antiterror no hemisfério ocidental, especialmente na Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. Tema espinhoso, complicado, que envolve a soberania de três países e principalmente do que há embaixo dessa região que os Estados Unidos tanto quer “tomar conta”: o Aqüífero Guarani, que é o maior manancial de água doce subterrânea no mundo, com área de 1,2 milhão de quilômetros quadrados, sendo dois terços pertencentes ao território brasileiro.

O pedido foi feito pela deputada do Partido Republicano, Ileana Ros-Lehtinen, refugiada de Cuba durante o governo de Fidel Castro e que representa o sul da Flórida no Congresso. Ela coloca que os países integrantes da Organização dos Estados Americanos (OEA) devem reconhecer o Hizbollah e o Hamas como organizações terroristas e afirmou que o ex-líder da Al Daeda no Iraque, Abu Musab al Zarqawi (morto em junho), teria orientado integrantes do grupo a usar o Brasil para chegar aos EUA.

Em resposta, o governo brasileiro, por meio da assessoria de comunicação do Ministério das Relações Exteriores, afirmou que não há indícios de terrorismo na região. Segundo o Itamaraty, Brasil, Argentina, Paraguai se reuniram em dezembro passado com os Estados Unidos e elaboraram um comunicado conjunto de que não existiam atividades terroristas naquela região.

O governo estadunidense, no entanto, modificou sua posição e disse, no início do ano, por meio do relatório anual sobre produção e tráfico de drogas, ter “informações consideráveis” sobre o financiamento de atividades terroristas naquele local, segundo a Agência Brasil. “Não posso entrar em detalhes, mas temos confiança nas nossas informações”, teria declarado na época para agências internacionais a subsecretária de Estado para a divisão internacional de narcóticos e fiscalização, Anne Patterson.

Essa história de que poderia haver terroristas na Tríplice Fronteira é antiga. Há anos os EUA insistem nessa ladainha, e chegaram a convencer o Paraguai, tanto que movimentações militares do exército estadunidense foram feitas recentemente no lado paraguaio do território. Para incrementar ainda mais a querela, a Rádio Mundo Real, por meio do sítio do Centro de Mídia Independente (CMI), informa que o chefe do Comando Sul, general John Craddock, teria estado no fim do mês passado na região das três fronteiras para participar do fim do “Fuerza Comando 2006”, um conjunto de cursos de especialistas estadunidenses, dado a militares de toda a América, menos de Argentina, Bolívia, Brasil e Venezuela, que preferiram não enviar ninguém.

Ainda segundo a notícia do CMI, o Comando Sul dos EUA está presente em bases militares de “controle e monitoração” nas ilhas de Aruba e Curaçao, em Arauca, Larandia e Três Esquinas, todas na Colômbia, na base equatoriana de Manta, além de Iquitos e Nanay no Peru. E o avanço não pára: desde o ano passado centenas de militares estadunidenses estão no Paraguai, com o objetivo de reativar a base militar de Mariscal Estigarribia, que fica próxima à fronteira com a Bolívia.

Segundo artigo de Carlos Pereyra Mele, do Centro de Pesquisas Estratégicas Sul-americanas (CEES) de Córdoba, na Argentina, a presença de tropas do Comando Sul no Paraguai é defendida por muitos militares estadunidenses, pois a região em questão – que possui uma forte colônia árabe – seria um “refúgio de terroristas”, e que dali os atentados seriam financiados. Ele lembra, ainda, que os EUA denominaram o eixo de sua política externa a “luta contra o terrorismo” pós-11 de setembro.

O historiador e cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira não crê nessa visão, pois, para ele, tudo teve início no governo de Ronald Reagan, devido ao esvaziamento da Guerra Fria, o que obrigou os EUA a reposicionarem seus objetivos e a buscarem novas tarefas. Ela ainda aponta qual o real objetivo desta ingerência militar do governo estadunidense: "O Brasil cansa de pedir provas, mas nada. Tudo indica que é um pretexto para ocupar o Aqüífero Guarani", disse à Agência Brasil.

Mas apesar de Mele achar que o eixo ocorreu após os atentados às Torres Gêmeas e ao Pentágono, concorda que o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas encaminhou esse novo direcionamento militar dos EUA, confirmando seu status de única superpotência militar do planeta.

Tais pedidos de reconhecimento de organizações terroristas (como o Hamas, um partido eleito democraticamente pelo povo palestino) e de que há terrorismo nessa região só por causa de uma colônia de árabes e por “informações consideráveis”, que nunca são divulgadas, como Moniz Bandeira critica, é de uma fantasia enorme. Ou então acham que as pessoas e os presidentes sul-americanos são palhaços para acreditarem nessa coincidência da região ter o maior reservatório de água doce no mundo, que será disputado a tapa (e provavelmente a tiros e bombas) no futuro.

Trata-se de uma ingerência tremenda, como se aqui fosse o quintal dos EUA, como eles acham que é e como nós não podemos deixar que se concretize essa visão. Não é papo anti-EUA, qualquer idiota pode perceber os interesses desse país na região que não tem nada a ver com terror. “Terrorismo” pode haver em qualquer lugar, logo eles arrumam outro lugar para atacar. É importante que esse debate volte à mídia, que as pessoas saibam e discutam na sociedade, para que possam pressionar seus governos contra mais uma intervenção dos Estados Unidos, principalmente em relação ao Paraguai, que se mostra muito parceiro, pois permite de forma recorrente o acesso do exército estadunidense à região paraguaia do território onde está aqüífero.

Curiosidade
Por fim, gostaria de falar sobre uma curiosidade ocorrida durante a procura desse material, depois que eu li a notícia na Agência Brasil. Engraçado que eu pesquisei o assunto em outros sites, como o da Folha e o do Estadão (sem falar no buscador Google) e não achei nada atual, no máximo, a já citada informação do CMI. Por que não seria interessante para esses veículos noticiarem algo referente à soberania do Brasil?

Afinal, quando falamos de reservas naturais, principalmente de água doce – elemento vital para o ser humano e cada vez mais em falta daqui pra frente -, isso é (ou deveria ser) de vital interesse em ser investigado e publicado pela mídia tradicional. Mas, como também sabemos, o “deve” muitas vezes não “é”. Quem sabe amanhã eles tragam alguma nota escondida em alguma página, só para dizerem que não deixaram de cumprir seu papel de “compromisso com o jornalismo”.

Clique aqui e veja uma infografia bastante interessante a respeito da intervenção estadunidense na América do Sul

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

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8:40 PM  

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