terça-feira, junho 27, 2006

NOTÍCIAS DO DIA - 27.06.06

Fiscalização durante campanha deve ser feita

Um dos destaques do dia vai para a matéria que saiu hoje na página A4 do Estado de S. Paulo e tem o título sugestivo para leitura: “Planalto prepara regras para fugir de acusação de uso da máquina”. Ou seja, o presidente Lula pediu à sua equipe jurídica que preparasse uma portaria com regras de conduta para o Palácio do Planalto durante as disputa eleitoral. Segundo o jornal, essa iniciativa seria uma forma de diminuir a imagem do governo de que tem feito muitas viagens para a participação em eventos públicos com um cunho mais voltado à propaganda política, o que tem sido sistematicamente criticado pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Marco Aurélio Mello.

De cara, vale a pena voltar os olhos novamente ao título e ver como o jornal pende para um lado ao colocar a palavra “fugir” ali, diagnosticando realmente que Lula tem feito campanha pelo Brasil. O fato de o governo elaborar uma portaria não precisa ser necessariamente por isso, pode ser para regulamentar algo importante que nunca se pensou antes. Claro que é meio utópico, mas não é função do jornal ajuizar valor referente a qualquer assunto, ainda mais sobre esse.

Desta feita, voltamos nosso olhar para o conteúdo em si noticiado pelo jornal e não pela sua forma. Já faz tempo que algo desse tipo deveria ser implantado, visando coibir abusos em tempos de eleição. Mas, todos sabem que, no frigir dos ovos, quem tem a máquina governamental do seu lado tem maiores chances de ser ouvido, visto, lido, pois mesmo que seja proibido, toda a estrutura voltada (idealmente) ao trabalho em prol do Brasil acaba por ser utilizada pelo governante, seja ele o Lula ou qualquer outro.

O que precisa ficar claro é justamente isto: todo político que tem alguma estrutura financeira, política, de articulação de verbas e apoios (e hoje em dia isso é essencial) tem mais chances de sobressair numa disputa eleitoral. E, qual o lugar – ainda mais agora, depois do escândalo do mensalão, em que todos estão mais contidos em dar e buscar capital para financiamento de campanha – que isso existe com maior facilidade que não um cargo público?

Por isso mesmo, é importante o trabalho de fiscalização feito pelo TSE, fazendo com que o Palácio do Planalto se coce para formular diretrizes explícitas, para que os funcionários à serviço do povo (é assim que deveria ser visto quem governa, não?) realmente trabalhem durante seu tempo de mandato. E, para isso, é vital a participação de todos nesse processo, com cada eleitor procurando saber o que seu eleito tem feito pelo país e como ele está se articulando para as próximas eleições.


Farpas para todos os lados


Outro assunto importante do dia foi a continuidade da troca de farpas entre PT e PSDB, que começou no último sábado, durante o lançamento da candidatura de Lula na Convenção Nacional do PT, quando o atual presidente da República discursou que o seu governo foi melhor que o de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), citando diversos números para comprovar sua tese.

No dia seguinte, na convenção estadual do PSDB, FHC rebateu as palavras de Lula e ainda disse que o PT ganha na gestão do PSDB apenas nos escândalos, na corrupção e na publicidade: “Teve coisas que eles fizeram mais que nós: muita corrupção, os escândalos, aí ganharam. Também gastaram muito. É muita publicidade, é muita propaganda para encobrir o nada. Aí ganharam”, atacou FHC, conforme matéria publicada pelo O Estado de S. Paulo na última segunda-feira (26), com o título “FHC diz não ser igual a ‘essa gente do PT’ e que Lula ‘é bom de garganta’” (página A4, caderno Nacional). O ex-presidente agrediu Lula por todos os lados, chamando-o de incompetente, além do “bom de garganta” mencionado pelo título do texto, clamando para comparar efetivamente os dois governos.

Em matéria publicada nesta terça-feira, na mesma página e seção do jornal (porém na parte inferior e com muito menos destaque), com o título “Lula sobre FHC: dor de cotovelo”, o atual presidente teria dito a seus assessores que FHC revelou “dor-de-cotovelo” ao atacá-lo no domingo, evidenciando um desespero em face de ampla vantagem que Lula demonstra nas pesquisas para o pleito presidencial. No entanto, Lula não disse nada oficialmente, segundo o jornal, pois seguiu orientações da estratégia de campanha lançada, em que sua defesa será feita por outras pessoas. Desta feita, o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, foi a bola da vez, e afirmou que FHC seria “um homem de muita coragem “ ao querer comparar seu mandato com o de Lula.

O que dá para apreender de todo esse bate-boca pérfido entre as duas siglas de maior representatividade no país? Justamente isso: o período eleitoral começou e, portanto, vale tudo para tentar minar as forças do inimigo. Nada mais importa para o PSDB o método (basta ler o texto e perceber a discriminação peessedebista contra os petistas), pois estão distantes de qualquer chance, no momento, de sobrepujar a vantagem de Lula e ataca de qualquer jeito para ver se consegue destemperar o atual presidente, para que este fale alguma bobagem para ser explorada pela imprensa tradicional.

Do outro lado, Lula mostra números e mais números, crente de que isto é suficiente para dizer que seu governo foi bom. E, de fato, as estatísticas parecem ter melhorado. Mas a troco do quê? De quem? É tão perceptível assim essa melhora para se vangloriar e querer achar que a batalha está ganha, sendo importante consolidar a aliança política dos próximos quatro anos a se preocupar com as eleições de 2006? É preciso compreender o que de fato os dois partidos querem mostrar com seus programas, projetos e idéias, que todas elas substituam as agressões, pois, o que interessa não é o arcabouço de baixo calão de cada partido e sim o que eles pretendem e vão fazer para melhorar o país, por mais que isso seja difícil de crer nos dias de hoje.


Críticas à economia

E para fechar o dia, vale a pena abordar o destaque que o Estado de S. Paulo tem dado, de forma sistemática, para os números da economia brasileira, principalmente aqueles que mostram um mau desempenho. Na página B5 do caderno de Economia, o título escancara: “Déficit do INSS cresce 37,5% com peso do mínimo”. O texto traz dados que indicam que a Previdência Social teve um aumento em seu rombo por causa do salário mínimo.

Na parte superior da página B5, mais porrada: “Balança tem a pior semana do mês”, ao mostrar que o superávit na balança comercial teve uma redução em relação ao mesmo período do ano passado, caindo de US$ 4 bilhões para US$ 2,4 bilhões. Isso por causa do crescimento das importações, segundo a matéria, suplantando as exportações, aliado ao problema da desvalorização do dólar.

Tudo bem, na parte superior da página B6 tem o título “Juro é o mais baixo desde 1994”, mostrando que a queda da taxa Selic finalmente começa a provocar reduções nos juros dos bancos. Se bem que a taxa de pessoa física recuar 1,7 ponto em maio, atingindo 56,1% ao ano, não é lá para comemorar tanto. Mesmo assim, numa chamada dentro da matéria com destaque em negrito com uma crítica dos empresários aos juros que ainda seriam muito altos. E só para fechar o noticiário econômico, no jornal de segunda-feira, logo na capa do caderno Economia (pg. B1) a questão do dólar influenciando a economia volta à baila: “Dólar fraco faz a indústria patinar”.

Esse tipo de material é importante, pois aponta os problemas que a economia brasileira enfrenta em suas várias áreas, que, com governo novo ou velho, persistem e atravancam o crescimento e o desenvolvimento econômico do Brasil. Mas, todo esse bombardeio jornalístico evidencia também a opção do jornal por criticar exaustivamente as opções do governo Lula em atuar de forma menos presa ao mercado internacional. E olha que isso ocorre apenas em alguns setores, já que em outros a ortodoxia continua e não deverá ter fim. Mas, mesmo assim, a crítica surge até quando a notícia é boa, caso dos juros ou de qualquer outra notícia que trate de algum avanço do governo atual – basta acompanhar com um pouco de cuidado o caderno de Economia do Estado.

E outra: essa redução no superávit da balança comercial, por exemplo, já estava prevista há séculos, pois quando aumenta o consumo, é fato que as importações de certos produtos aumentem. Se o Brasil exportasse menos insumos (o famoso agronegócio, que dá dinheiro para poucos) e mais produtos manufaturados, essa diferença. Ou seja, o problema não está na importação e sim no tipo de produto que exportamos e o retorno que ele dá.

No caso do salário mínimo, o que fazer? Deixar de aumentá-lo? É preciso deixar de desviar (ou contingenciar, como os tecnocratas dizem) verba do INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) para outros setores, aí sim poderemos ver se há déficit mesmo, o que eu duvido. O assunto dos juros, então, nem tem o que dizer. Os maiores credores do governo federal são os bancos, então eles atuam livremente para cobrarem o que quiserem e o governo assiste, pois não pode fazer nada, é refém deles e está de mãos atadas. Portanto, há outros aspectos que precisam ser analisados e que a cobertura da imprensa tradicional não cumpre.